Um Carrinho especial – Rui Kandove
Um Carrinho especial - Rui Kandove
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Uma das medidas que mais indignou a sociedade, durante a vigência do Presidente José Eduardo dos Santos, foram os famosos despachos presidenciais publicados nos últimos momentos do seu mandato, contendo decisões de grande relevância económica e política e que, de certa forma, poderiam ser interpretadas como um embaraço para o novo inquilino da Cidade Alta.

O Presidente João Lourenço chegou a manifestar desconforto com algumas dessas decisões e determinou a anulação de determinados actos.

Hoje, a história parece estar a produzir uma espécie de déjà-vu.

A menos de um ano do fim do mandato do Presidente João Lourenço, multiplicam-se as autorizações, adjudicações e decisões de natureza económica provenientes do Palácio Presidencial, algumas envolvendo negócios de enorme dimensão e sectores estratégicos da economia nacional.

A entrada do Grupo Carrinho na estrutura accionista do Banco de Fomento Angola é um dos exemplos mais recentes da dimensão que alguns grupos empresariais nacionais vêm alcançando.

Em Janeiro de 2026, a Congolian Financial, ligada ao Grupo Carrinho, passou a deter uma participação qualificada de 7,61% do capital do BFA, posição que lhe garantia presença na Assembleia Geral do banco. A participação resultou da aquisição de acções no âmbito da privatização do BFA. (VerAngola⁠ )

Meses depois, porém, a Congolian Financial alienou a totalidade dessa participação aos fundos de investimento AXIOS e ASSET, operação comunicada à Comissão do Mercado de Capitais.

Ou seja, o episódio do BFA deve ser lido com rigor: o Grupo Carrinho entrou no capital do banco, ganhou uma posição relevante e, posteriormente, transferiu essa participação.

Mas o caso do BFA não pode ser analisado isoladamente. Ao longo dos últimos anos, outros grupos empresariais nacionais, com destaque para a Omatapalo, passaram a ocupar uma posição cada vez mais visível na execução de grandes projectos públicos.

E é aqui que começam as perguntas.

Não se trata de questionar o direito de uma empresa angolana crescer. Pelo contrário. Angola precisa de empresas nacionais fortes, capazes de investir, criar emprego, produzir riqueza e competir em sectores estratégicos.

O problema surge quando a sociedade começa a perceber que os mesmos grupos aparecem repetidamente entre os grandes negócios do Estado.

Os contratos que alimentam a discussão

Há exemplos concretos que ajudam a compreender a dimensão do debate.

Em 2022, o Despacho Presidencial n.º 207/22 autorizou a abertura de um procedimento de contratação simplificada, no valor global de 1,955 mil milhões de dólares, para projectos de electrificação de 26 sedes municipais e 56 comunas, além de projectos de abastecimento de água e construção de centrais fotovoltaicas.

O contrato foi autorizado com o consórcio Global Sun Africa, constituído pela Sun Africa LLC e pela Omatapalo — Engenharia e Construções.

É um valor extraordinariamente elevado. E não é o único.

A Omatapalo também esteve associada a grandes empreitadas de infra-estruturas e projectos públicos, incluindo a reabilitação e duplicação da EN100, através de contratação por ajuste directo.

O que estes exemplos demonstram não é, por si só, a existência de ilegalidade ou favorecimento.

A contratação simplificada é um procedimento previsto na legislação angolana. A questão política é outra: quando um Estado utiliza repetidamente mecanismos que limitam a concorrência e quando determinados grupos aparecem sucessivamente nos grandes contratos, é legítimo que a sociedade peça explicações.

E os números da contratação pública tornam a questão ainda mais relevante.

Segundo dados do Serviço Nacional da Contratação Pública, em 2025 a contratação simplificada representou cerca de 70% dos procedimentos registados, num universo de mais de oito mil procedimentos, e alcançou aproximadamente 1,718 biliões de kwanzas em valor contratual.

Não significa que todos esses procedimentos sejam irregulares. Significa, isso sim, que existe uma concentração significativa da contratação pública em mecanismos que merecem escrutínio permanente.

O problema não é o Carrinho

É importante deixar uma coisa clara. O problema não é o Grupo Carrinho. O Grupo Carrinho tem todo o direito de crescer. A Omatapalo também.

Aliás, seria absurdo defender que empresários angolanos não devem participar nos grandes negócios do país. O problema está na percepção de concentração das oportunidades económicas.

Uma das dimensões mais delicadas da gestão e manutenção do poder é precisamente a capacidade de distribuir oportunidades, criar equilíbrio entre grupos económicos e permitir que diferentes empresários tenham condições para crescer, investir, produzir emprego e contribuir para o desenvolvimento nacional.

Um Estado que pretende construir uma economia forte não deve depender de meia dúzia de grupos empresariais. Deve criar condições para que surjam dezenas.

Mais Carrinhos. Mais Omatapalos. Mais empresas industriais. Mais grupos financeiros. Mais empresários capazes de disputar, em igualdade de circunstâncias, os grandes contratos e investimentos.

Porque uma economia verdadeiramente competitiva não é aquela em que alguns grupos crescem extraordinariamente. É aquela em que muitos grupos conseguem crescer.

O fantasma de JES

Foi precisamente a concentração das oportunidades económicas e a proximidade entre determinados grupos empresariais e o poder político que alimentaram algumas das críticas mais duras ao longo dos anos de governação de José Eduardo dos Santos.

João Lourenço chegou ao poder prometendo ruptura. Prometeu combater a corrupção. Prometeu combater o nepotismo. Prometeu melhorar a transparência. Prometeu criar um ambiente económico mais competitivo. E, sobretudo, prometeu fazer diferente.

Por isso, quando, no final do seu ciclo político, a sociedade volta a assistir à ascensão extraordinária de determinados grupos empresariais e à concentração de grandes negócios públicos em torno de um número relativamente reduzido de empresas, é inevitável fazer perguntas.

Não porque as empresas devam ser penalizadas pelo seu sucesso. Mas porque o poder público deve ser escrutinado pela forma como distribui oportunidades.

O Estado não deve fabricar campeões económicos. Deve criar as condições para que os campeões surjam da concorrência. Essa diferença é fundamental.

Entre o Estado e os empresários

Há uma diferença enorme entre ter empresários próximos do poder e ter um Estado próximo de todos os empresários. O primeiro modelo cria dependências. O segundo cria desenvolvimento.

Se uma empresa é escolhida porque apresentou a melhor proposta, porque tem capacidade técnica, porque oferece melhores condições ou porque a lei permite determinado procedimento, não há problema.

Mas se os mesmos nomes aparecem sucessivamente nos grandes negócios públicos, o Estado tem uma obrigação adicional: explicar.

Explicar os critérios. Explicar os procedimentos. Explicar por que razão foi escolhida aquela empresa. Explicar quantas empresas participaram. Explicar quanto foi pago. Explicar quais foram os resultados.

É assim que se combate a suspeita. É assim que se protege o próprio empresário. É assim que se protege o Estado. E é assim que se protege a democracia.

João Lourenço está a fazer o mesmo que JES?

Esta é talvez a pergunta mais incómoda. João Lourenço chegou ao poder criticando determinadas práticas do passado. Hoje, aproxima-se o fim do seu ciclo presidencial e começam a multiplicar-se as comparações.

Não seria intelectualmente honesto dizer que os dois períodos são iguais. Não são. Os contextos são diferentes. Os protagonistas são diferentes. As circunstâncias económicas e políticas são diferentes.

Mas há uma questão que merece ser colocada: mudaram apenas os protagonistas ou mudou realmente o modelo?

Porque se ontem eram criticados os despachos de última hora, os grandes negócios atribuídos a determinados grupos e a concentração de oportunidades económicas, não seria aceitável que amanhã a sociedade voltasse a identificar exactamente o mesmo padrão, apenas com outros nomes.

O problema não é o Carrinho. O problema não é a Omatapalo. O problema é quando o Estado parece demasiado pequeno para tantos negócios e os mesmos grupos parecem demasiado grandes para ficar de fora deles.

Angola precisa de empresários fortes. Mas precisa, sobretudo, de regras fortes. Precisa de concorrência. Precisa de transparência. Precisa de previsibilidade. Precisa de instituições capazes de garantir que o sucesso empresarial não depende da proximidade ao poder.

Porque, no fim, a verdadeira questão não é saber quem ganhou este ou aquele contrato.

A pergunta que interessa é muito maior: o Estado está a construir uma economia para todos ou está apenas a mudar os beneficiários do sistema?

*Jornalista

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