
Há várias expressões na Bíblia Sagrada que, há séculos, profetizaram muitas realidades tristes que, nos dias de hoje, assustam qualquer ser humano. Mas esta, de o predador morar nas mesmas paredes que a vítima – portanto, o pai – deixa-nos boquiabertos e sem nenhuma solução, quando está em causa a proteção da nossa criança.
Ao pronunciar a palavra ngombidi, a memória transportou-me até à história de um pai – não sei se merece esta designação – que fazia de sua mulher e do seu filho mona diala, até que o caso chegou às autoridades e acabou por parar na unidade prisional da Petrangol, em Luanda.
Segundo relatos, o ngombiri tinha tentado primeiro o filho mais velho, mas este negou, qual diabo na cruz. E, lá na cadeia, os reclusos – não sei como deram conta do crime do recém-entrado – fizeram justiça: não foi com as próprias mãos, mas sim com o “próprio mambo”.
Em solidariedade ao filho abusado, os reclusos fizeram também do ngombiri sua mulher. Um, dois, três, e não sei mais quantos rebarbados foram matando as saudades – imaginem – depois de longo tempo de secura.
Só mais um minuto naquela cela e o homem perderia a vida, mas, graças à pronta intervenção dos guardas prisionais, foi retirado das mãos dos algozes e transferido para outra unidade.
E relatos de pais ngombiri são vários. Ouviu-se, também em Luanda – sempre em Luanda –, de um tal pai, grande treinador de futebol. Não sei se já saiu da cadeia ou não. Então, de quem devem os filhos receber conselho, se o ngombiri é o próprio pai, a quem cabe toda a responsabilidade de proteger a vítima?
Entram hoje na cadeia e saem amanhã, como aconteceu com o caso que se tornou viral nas redes sociais e capitalizou as conversas nos quintais, candongueiros e outros sítios, da famosa “tia Bolinha”, que fazia de mulher a sua filha de criação.
Por outra, esta história de filha de criação ou filha biológica é também outra maka: ou é filha ou não é. E, voltando ao caso do “tio Bolinho” – tio porque, das tias, nunca ouvi nada de abusos sexuais –, ele saiu sob termo de identidade.
Saiu, sim, e foi para a mesma casa onde está a presumível vítima. Será que os poucos dias na cadeia cortaram a mania? E, enquanto a sociedade busca soluções, recordei-me do conselho – ou proposta – que uma deputada, não sei de que bancada, terá apresentado quando o caso das penas a aplicar aos ngombiri esteve em discussão na Assembleia Nacional: cortar a coisa e depois cadeia.
A proposta foi muito aplaudida por uns e negada por outros, mas a deputada insistiu: cortar, para nunca mais abusar e também para disciplinar os demais ngombiri à solta, que deixam muitas mulheres “famintas” e preferem abusar de crianças, algumas do sexo masculino.
Por isso, a solução é: cortar, cortar, cortar mesmo o puro “mambo”, para tristeza não só do ngombidi, como também da sua infeliz mulher, sem culpa de nada e que será, seguramente, obrigada a buscar outro macho para o cumprimento de uma das leis mais famosas do Senhor.
*Jornalista