Novo vírus de plantas descoberto em Angola pode ameaçar produção agrícola
Novo vírus de plantas descoberto em Angola pode ameaçar produção agrícola
pais cunha

Um novo vírus de plantas, identificado no município do Seles, província do Cuanza-Sul, pode representar um risco para a produção agrícola em Angola, caso venha a disseminar-se para culturas comerciais como batata, tomate, pimento, soja e leguminosas.

Designado Seles Weed Carlavirus e referido na literatura científica como Seles Weed Virus A, o agente pertence ao género Carlavirus, grupo de vírus conhecido pela capacidade de infectar diferentes espécies vegetais, incluindo plantas cultivadas e espontâneas.

A descoberta foi feita por uma equipa de investigadores angolanos e italianos, da qual faz parte o engenheiro agrónomo e docente universitário Adérito Tomás Pais da Cunha, durante um levantamento fitossanitário realizado nas províncias do Cuanza-Sul e Benguela.

Segundo o investigador, o vírus foi detectado numa planta espontânea, ou erva daninha, recolhida no município do Seles, através de técnicas de análise metagenómica e sequenciação de alto rendimento.

O material genético encontrado foi posteriormente comparado com bases de dados internacionais, permitindo concluir que se tratava de uma entidade viral até então desconhecida pela ciência.

Os resultados da investigação foram submetidos a avaliação científica e publicados na revista internacional Archives of Virology, consolidando a identificação do novo membro do género Carlavirus.

Apesar da descoberta, Adérito Pais da Cunha esclarece que não existem, até ao momento, evidências científicas de que o Seles Weed Carlavirus esteja a infectar culturas comerciais ou a provocar perdas económicas em Angola.

O risco, explica, reside no facto de as plantas espontâneas poderem funcionar como reservatórios de agentes patogénicos, mantendo os vírus no ambiente e criando condições para uma eventual transmissão para culturas agrícolas de importância económica.

“Não existem evidências de que esteja a infectar culturas comerciais”, sublinha o investigador, acrescentando, contudo, que a situação poderá exigir acompanhamento caso sejam identificados novos hospedeiros ou ocorram alterações na distribuição do vírus.

Os mecanismos específicos de transmissão do novo vírus ainda não foram experimentalmente confirmados. No entanto, com base no comportamento de outros vírus do género Carlavirus, os investigadores consideram possível a participação de insectos picadores-sugadores, como os pulgões, além da propagação vegetativa através de material de plantação contaminado.

Pais da Cunha alerta que não existem tratamentos químicos ou antibióticos capazes de curar plantas infectadas por vírus. A resposta passa, essencialmente, pela prevenção, vigilância fitossanitária e gestão integrada, incluindo o controlo adequado de plantas infestantes que possam funcionar como reservatórios.

O investigador defende, por isso, o reforço da capacidade nacional de diagnóstico e vigilância epidemiológica, sobretudo numa altura em que Angola procura aumentar a produção interna de alimentos e reduzir a dependência das importações.

Para o especialista, a sanidade vegetal deve acompanhar os investimentos em mecanização, irrigação, fertilização e expansão das áreas cultivadas, uma vez que pragas e doenças podem comprometer os ganhos obtidos no aumento da produção agrícola.

A investigação resultou da cooperação entre instituições angolanas e italianas, com destaque para a Universidade de Florença e o Instituto para a Protecção Sustentável das Plantas do Conselho Nacional de Investigação de Itália, em Bari, com apoio financeiro da União Europeia.

Além de identificar o novo vírus, o estudo demonstrou a utilidade das tecnologias de sequenciação de alto rendimento na identificação de agentes patogénicos que podem permanecer invisíveis através dos métodos tradicionais de diagnóstico.

Para Adérito Pais da Cunha, a descoberta representa, assim, mais do que um alerta fitossanitário: constitui também uma oportunidade para aprofundar o conhecimento sobre a diversidade viral existente em Angola e fortalecer a investigação científica nacional.

O investigador defende ainda maior investimento na formação de jovens especialistas em fitopatologia, biotecnologia e bioinformática, considerando que a capacidade de detectar precocemente novas ameaças é fundamental para proteger a produção agrícola, os investimentos no campo e a segurança alimentar do país.

A investigação sobre o Seles Weed Carlavirus não está concluída. A caracterização genética do vírus representa a primeira fase de um trabalho que deverá ser aprofundado para determinar a sua distribuição geográfica, identificar possíveis hospedeiros e avaliar, com maior precisão, o seu eventual impacto sobre as culturas agrícolas angolanas.

Adérito Tomás Pais da Cunha é engenheiro agrónomo, mestre em Protecção de Plantas pelo Instituto Agronómico Mediterrâneo di Bari e doutor em Protecção de Plantas pela Università degli Studi di Padova, em Itália.

É professor auxiliar do Instituto Superior Politécnico do Cuanza-Sul desde 2011 e dirigiu, entre 2018 e 2022, o Centro Nacional de Investigação Científica. É membro fundador da Academia Angolana de Ciências e integra organismos científicos africanos ligados à investigação e inovação.

Ao longo da carreira, participou em diversos projectos internacionais de investigação agrária e publicou trabalhos científicos nas áreas de virologia vegetal, fitopatologia e protecção de culturas.

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