
Luzia Pereira de Sousa Inglês Van-Dúnem, conhecida pelo nome de guerra Inga, é uma das figuras femininas mais destacadas da história contemporânea de Angola, Nascida em Luanda, em 1948, integrou, muito jovem, as fileiras do MPLA, após o assassinato do seu pai, o reverendo metodista Guilherme Inglês, pelas forças coloniais portuguesas, em 1961.
Durante a Luta de Libertação Nacional, recebeu formação em rádio e telecomunicações na então União Soviética, e desempenhou funções de operadora radialista nas 2.ª e 3.ª Regiões Político-Militares do MPLA. Mais tarde, chefiou a Estação de Comunicações da Cassamba e, após a Independência, dirigiu, durante vários anos, o Centro de Comunicações do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Angolanas, tornando-se uma referência no sector das Telecomunicações militares.
Além do seu percurso militar, Luzia Inglês destacou-se pela sua intervenção política e pela defesa dos direitos da mulher angolana. Foi dirigente da Organização da Mulher Angolana (OMA) em diferentes períodos e exerceu o cargo de secretária-geral da organização entre 1999 e 2021, contribuindo para o fortalecimento da participação feminina na vida política nacional.
Antes de mais, gostaríamos de conhecer a origem da sua família. Pelo apelido Pereira Inglês, presume-se que possa haver alguma ligação com origens externas. Qual é a história da sua família?
O meu pai, Guilherme Pereira Inglês, era natural do Cuanza-Norte. Pelo que sei da história da família, o apelido Inglês já existia há várias gerações. Tenho informações de que os meus antepassados se fixaram naquela região por volta dos anos 1900. O meu pai nasceu em 1916.
A senhora cresceu em Malanje ou em Luanda?
Só estive em Malanje depois da Independência, nos anos 80, quando fui deputada. Cresci entre Luanda e as missões onde o meu pai trabalhava como pastor. A minha mãe vinha a Luanda para ter os filhos e, depois do parto, regressava para junto do meu pai. Nós crescemos nas missões metodistas, onde também iniciámos a nossa escolaridade. Como o meu pai era pastor, vivíamos junto da missão e estudávamos nas escolas ali existentes.
Como foi o seu percurso escolar?
Hoje, costumo dizer que fui vítima de discriminação de género ainda em criança. Eu era a filha mais velha e entrei primeiro para a escola. Tinha irmãos mais novos que ingressaram depois de mim, mas eu fui obrigada a repetir a 1.ª classe três vezes por decisão da própria escola. O sistema funcionava da seguinte forma: as missões metodistas asseguravam o ensino, mas os exames oficiais eram realizados pelas administrações coloniais. Nessa altura, o meu pai já tinha sido transferido de Nambuangongo para os Gangulas. Foi lá que iniciei os estudos. Frequentei a 1.ª classe e permaneci nela durante três anos. Em 1957, já tinha nove anos de idade e continuava sem ser autorizada a passar de classe. Para fazer os exames, caminhávamos a pé dos Gangulas até Kibaxe. Era um percurso longo e exigente, mas era a única forma de sermos admitidos às provas oficiais. Concluí a 4.ª classe já em Luanda, no Colégio Leopoldina. Depois de me ver repetir tantas vezes a mesma classe, o meu pai decidiu tirar-me dos Gangulas e trazer-me para Luanda. Eu tinha então cerca de nove ou dez anos. Nessa altura, ele já tinha arrendado uma casa no Bairro Operário para os filhos mais velhos que estudavam na cidade. Os meus irmãos Júlia Pereira Inglês, Matias Pereira Inglês, Augusto Pereira Inglês e Elisa Pereira Inglês já se encontravam em Luanda a estudar. Como nas missões o ensino terminava na 4.ª classe, era necessário prosseguir os estudos na capital.
O que aconteceu quando começou a Luta Armada de Libertação Nacional?
Quando regressei aos Gangulas tinha 12 anos. Em Janeiro de 1961, completei 13 anos. Pouco tempo depois, começaram os acontecimentos que marcaram o início da luta de libertação. As populações africanas já viviam um ambiente de grande tensão. Havia inquietação e um sentimento crescente de revolta contra o regime colonial. Com o desencadear da guerra, muitas famílias abandonaram as suas casas e procuraram refúgio nas matas. Foi também o nosso caso. Saímos para a mata e ali permanecemos durante vários anos. Apenas em Junho de 1964 deixámos a Primeira Região Político-Militar e seguimos para o então Congo-Leopoldville, onde nos reencontrámos com outros familiares.
Como foi a vida na mata durante os primeiros tempos da guerra?
Foi uma vida muito difícil. Lembro-me particularmente do dia 23 de Março, quando ocorreu um forte bombardeamento. Uma esquadrilha de aviões sobrevoou a região e lançou bombas sobre as áreas onde nos encontrávamos. Eu tinha apenas 13 anos e estava com os meus irmãos. Vimos os aviões aproximarem-se a baixa altitude, quase a tocar as árvores. Inicialmente, como éramos crianças, até olhámos para aquilo com curiosidade. Chegámos a apontar para o céu e a gritar: “Olha o avião!”. Pouco depois começaram as explosões. Foi um momento de grande pânico. Não compreendíamos totalmente o que estava a acontecer, mas percebíamos que corríamos perigo. Nessa altura, o meu pai já tinha sido levado pelas autoridades coloniais. A minha mãe encontrava-se em Luanda, para onde tinha viajado, a fim de acompanhar um dos meus irmãos que partira um braço. Por essa razão, ela não seguiu connosco para a mata. A separação e a angústia, provocadas pela guerra, afectaram-na profundamente. Acabou por falecer algum tempo depois, sem conseguir suportar o sofrimento causado pela situação da família.
Durante o período nas matas, tinham contacto com dirigentes políticos dos movimentos de libertação?
Não de forma regular. Em Nambuangongo, havia alguns activistas políticos que conhecíamos e que, ocasionalmente, conseguiam deslocar-se entre as zonas controladas pelos movimentos e as áreas onde a população se encontrava refugiada. Na Primeira Região, existiam áreas onde a influência do MPLA era mais forte e outras onde predominava a influência da UPA. Mesmo entre a população havia diferentes formas de compreender a luta. O MPLA defendia uma luta organizada e armada contra o colonialismo, enquanto a UPA mobilizava muitas pessoas que, em várias ocasiões, enfrentavam forças militares bem equipadas com meios extremamente rudimentares, como catanas, paus e outros instrumentos improvisados. Mais tarde, quando passámos a conviver directamente com os quadros do MPLA, percebemos melhor as diferenças de organização e de estratégia que existiam entre os movimentos.
Como conseguiram sair da fronteira e chegar a Leopoldville?
A situação mudou quando os camaradas do MPLA, que se encontravam na clandestinidade em Leopoldville, tomaram conhecimento da presença da nossa família na fronteira. Entre eles estava o meu cunhado, Inocêncio Jacob João Caetano, que já vivia com a minha irmã. Eles tinham chegado antes e conseguiram organizar alguma ajuda. Quando souberam que a família Inglês tinha conseguido atravessar a fronteira, enviaram um mensageiro com dinheiro suficiente para comprarmos os bilhetes de comboio. Se não fosse essa ajuda, provavelmente teríamos permanecido durante muito mais tempo a trabalhar nas lavras da região fronteiriça. Foi graças a essa intervenção que conseguimos deixar a fronteira e seguir para Leopoldville. Quando chegámos, fomos acolhidos pela minha irmã e pelo meu cunhado. As condições eram muito modestas. Vivíamos todos no mesmo quintal e partilhávamos um espaço muito pequeno. Éramos muitos e dormíamos como podíamos, mas, apesar das dificuldades, sentíamos finalmente alguma segurança. Depois de anos de fuga, de guerra e de incertezas, tínhamos conseguido reunir novamente parte da família.
Quando começou a sua ligação à OMA?
Cheguei a Leopoldville com cerca de 16 anos de idade. Foi nesse período que comecei a aproximar-me da Organização da Mulher Angolana (OMA).Mas antes disso houve um processo de integração junto das estruturas políticas angolanas presentes no exílio. Assim que chegámos a Leopoldville, fomos encaminhados para as estruturas que acompanhavam a chegada dos refugiados vindos das matas. Entregámos os documentos e as guias de marcha que transportávamos. Recebemos assistência básica e tratamento médico, incluindo cuidados contra a malária. Depois disso, passámos a estar totalmente sob acompanhamento das estruturas ligadas ao MPLA.
De Leopoldville, vai para Brazzaville. Quando chegou a Brazzaville, como foi enquadrada nas estruturas do MPLA?
Nessa altura, os camaradas que trabalhavam na organização do movimento tinham como missão facilitar a travessia de jovens para Brazzaville e encaminhá-los para formação política e académica. Houve várias tentativas para que eu pudesse prosseguir os estudos no exterior. Em determinada altura surgiu a possibilidade de integrar um grupo de estudantes que seguiria para a União Soviética.
Infelizmente, devido a dificuldades organizativas e conjunturais, essa oportunidade acabou por não se concretizar. Permaneci ali cerca de três meses. Posteriormente fui enviada para Dolisie, onde funcionava o Internato Padre Ferreira. Em Dolisie, fiz parte do grupo que participou na abertura do primeiro liceu organizado pelo MPLA naquela região. Éramos um grupo reduzido de estudantes, mas existia uma grande determinação em garantir a formação académica da juventude angolana.
Alguns meses depois, voltámos para Brazzaville e dali viajámos de avião para Dar es Salaam, na Tanzânia. Quando chegámos a Dar es Salaam, fomos todos instalados provisoriamente num quartel disponibilizado pelo Presidente Julius Nyerere para acolher os angolanos ligados aos movimentos de libertação. Os militares permaneceram ali apenas alguns dias. Depois começaram a ser transportados para bases situadas no interior da Tanzânia, onde receberiam preparação e enquadramento adequados. A Tanzânia desempenhou um papel muito importante no apoio aos movimentos africanos de libertação e acolheu muitos combatentes, estudantes e refugiados provenientes de vários países da região. O apoio recebido do povo e das autoridades tanzanianas foi fundamental para a continuidade da luta.
Como se organizou a permanência dos angolanos na Tanzânia?
Com o apoio das autoridades tanzanianas, foram criadas estruturas de apoio e coordenação junto da fronteira com a Zâmbia. Foi instalado um gabinete político do MPLA destinado a preparar a deslocação dos diferentes grupos e a assegurar a ligação entre as estruturas do movimento e as autoridades locais. Entre os responsáveis envolvidos nesse trabalho, encontrava-se o camarada Manuel dos Santos Tito. A prioridade era garantir condições para o acolhimento, a organização e a deslocação segura dos estudantes, combatentes, famílias e demais quadros do movimento.
Por que razão foi necessário atravessar a Zâmbia?
A Tanzânia não faz fronteira com Angola. Para chegar às zonas operacionais ligadas à luta de libertação era necessário atravessar o território zambiano. Essa etapa revelou-se uma das mais difíceis de todo o percurso. As condições políticas e logísticas nem sempre facilitavam a circulação dos grupos ligados aos movimentos de libertação, o que obrigava a uma preparação muito cuidadosa.
Naquele momento, já existiam contactos com a futura Frente Leste?
Sim! Nessa altura, já circulavam informações sobre os primeiros esforços para abrir e consolidar a Frente Leste. Vários camaradas tinham sido enviados anteriormente para avaliar as condições no terreno e preparar a instalação das estruturas político-militares naquela região. Alguns enfrentaram enormes sacrifícios, incluindo detenções, perseguições e longos períodos de isolamento. Muitos dos pioneiros desse processo pagaram um preço muito elevado pela sua participação na luta.
Teve dificuldades de integração quando chegou à Frente Leste?
Sim, sobretudo devido às diferenças linguísticas e culturais. Muitos de nós vínhamos de outras regiões do país e não dominávamos as línguas faladas localmente. Tivemos de aprender a conviver com comunidades de diferentes origens e tradições. Era uma experiência nova para todos. Ao mesmo tempo, encontrámos muitos camaradas empenhados na luta e preparados politicamente. Havia jovens que já tinham recebido formação nas estruturas do MPLA e que ajudavam os recém-chegados a compreender melhor a realidade da Frente Leste.
O que mais a impressionou quando chegou à Frente Leste?
A diversidade humana e cultural de Angola. Muitas pessoas tinham vivido toda a vida em regiões muito isoladas e conheciam pouco da realidade de outras partes do país. Havia jovens que nunca tinham saído das suas localidades de origem e que estavam a descobrir, pela primeira vez, a dimensão e a diversidade de Angola. Também eu vivi essa experiência. O contacto com camaradas de diferentes regiões permitiu-me compreender melhor a riqueza cultural do nosso povo e a dimensão nacional da luta que travávamos.
Como foi o primeiro contacto com as populações da Frente Leste?
Lembro-me de um episódio que ilustra bem o choque cultural que vivemos quando chegámos. Os guias que nos acompanhavam falavam português e também as línguas locais, servindo de intérpretes entre os recém-chegados e as populações da região. Os habitantes recebiam-nos com grande solidariedade e procuravam partilhar aquilo que tinham. Muitas vezes, preparavam funje para os grupos que chegavam. Nós conhecíamos o funje, porque também fazia parte da alimentação das nossas famílias, mas os hábitos alimentares eram diferentes. O funje era mais rijo e, muitas vezes, servido sem os acompanhamentos a que estávamos habituados. Para nós, foi uma experiência nova. Aos poucos fomos aprendendo a conhecer e a respeitar as tradições locais.
Durante a permanência na Tanzânia, teve contacto com a luta de libertação moçambicana?
Sim! Durante esse período tivemos a oportunidade de acompanhar algumas actividades ligadas à FRELIMO e às comemorações da luta de libertação de Moçambique. Recordo-me de que Samora Machel era já uma das grandes figuras do movimento e de que a sua esposa, Graça Machel, desempenhava responsabilidades importantes na Organização da Mulher Moçambicana. Tivemos igualmente oportunidade de visitar zonas próximas da frente de combate moçambicana, o que nos permitiu conhecer melhor a realidade daquela luta. Foi uma experiência marcante, porque nos fez perceber que os povos africanos enfrentavam desafios semelhantes na luta contra o colonialismo.
Que comparação fazia, na altura, entre o MPLA e a FRELIMO?
Pela experiência que tive, as orientações políticas e ideológicas apresentavam muitas semelhanças. Ambos os movimentos defendiam a libertação nacional, a unidade dos seus povos e a formação política dos quadros. Havia igualmente uma forte aposta na educação, na organização das populações e na preparação dos combatentes. Naturalmente, cada movimento tinha as suas especificidades, determinadas pela realidade do respectivo país. Mas existiam muitos pontos de convergência e um espírito de solidariedade entre os movimentos de libertação africanos. Para nós, jovens militantes à época, esse contacto reforçava a convicção de que fazíamos parte de uma luta mais ampla pela independência e pela emancipação do continente africano.
Onde se encontrava no dia 25 de Abril de 1974?
Estava em Dar es Salaam com a minha filha, que tinha apenas alguns meses de vida. Recebi a notícia da Revolução dos Cravos com uma emoção difícil de descrever. Foi um momento de enorme alegria, mas também de reflexão. Pensei imediatamente em todos os camaradas que tinham morrido ao longo da luta, nos familiares que tínhamos perdido e nos anos de sacrifício que tínhamos vivido. Perguntávamo-nos se a independência estava finalmente próxima e como seria o futuro de Angola.
Qual foi o impacto da Revolução dos Cravos entre os militantes do MPLA?
A notícia foi recebida com esperança, mas também com prudência. O movimento atravessava uma fase complexa, marcada por divergências internas e por dificuldades de organização. Havia preocupações sobre o futuro da luta e sobre a capacidade de preservar a unidade do movimento. Por isso, apesar da alegria, existia também uma grande expectativa em relação aos acontecimentos que se seguiriam.
Como via as tensões políticas que surgiram após a Independência?
Naquela altura, eu era apenas militante e desempenhava funções técnicas na área das comunicações. Quando ocorreram os acontecimentos que mais tarde marcaram a vida política do país, eu ainda não exercia funções de direcção. Trabalhava nas telecomunicações e, posteriormente, no serviço de telex da Presidência. Por isso, muitas das divergências e disputas que surgiram eram questões que se desenvolviam, sobretudo, a nível das lideranças políticas. Sempre entendi que muitos desses problemas nasceram das interpretações, dos ressentimentos e das disputas existentes entre determinados grupos e não propriamente entre os combatentes de base.
Onde se encontrava no dia 11 de Novembro de 1975?
No dia da proclamação da Independência, encontrava-me em Luanda. Vivia ainda no apartamento que nos tinha sido atribuído após o regresso ao país e, nessa data, participei nas cerimónias realizadas na então Praça da Independência. Fiquei instalada na tribuna reservada aos convidados e aos responsáveis ligados às estruturas do MPLA.
Que recordações guarda desse momento?
É uma das imagens mais marcantes da minha vida. Estava relativamente próxima da área onde se encontravam o Presidente Agostinho Neto e outros dirigentes. Lembro-me da emoção colectiva que se viveu naquela noite. Muitas pessoas choravam. Eu própria chorei. Enquanto assistia à proclamação da Independência, recordava todos aqueles que tinham perdido a vida ao longo da luta: familiares, amigos, companheiros de guerrilha e camaradas que não chegaram a testemunhar aquele momento histórico. Pensei no meu pai, na minha irmã, nos meus tios, nos companheiros que tombaram nas matas e em tantos outros que sacrificaram a vida pela libertação de Angola. A alegria da Independência misturava-se com a memória dos que já não estavam connosco.
Quando começou a trabalhar na Presidência da República?
Só mais tarde. As estruturas da Presidência foram sendo organizadas gradualmente após a Independência e comecei a trabalhar no Palácio Presidencial já em 1976.Inicialmente, fui colocada no serviço de telex. No telex, o meu trabalho consistia essencialmente na recepção, registo e encaminhamento de mensagens. O telex era, naquela época, um dos principais meios de comunicação escrita à distância. Recebíamos mensagens provenientes de diferentes instituições e serviços, fazíamos o respectivo tratamento administrativo e encaminhávamo-las para os destinatários competentes. Quando as mensagens eram destinadas ao Presidente da República, seguiam primeiro para a secretária particular, que procedia ao encaminhamento adequado. Da mesma forma, as mensagens emitidas pela Presidência eram preparadas e transmitidas através do sistema de telex.
Em Outubro de 1976, realizou-se a Primeira Reunião Plenária do Comité Central do MPLA, onde começaram a surgir denúncias sobre alegadas tendências fraccionistas. Como é que os militantes encararam essa situação?
Nessa época eu ainda era uma militante de base.Trabalhava nos serviços de comunicações e não tinha acesso directo às discussões políticas mais reservadas da direcção do partido. No Palácio Presidencial, desempenhava funções técnicas e também participava no trabalho de mobilização política dos trabalhadores. Por isso, as informações que chegavam até nós eram limitadas. Contudo, pela experiência acumulada desde os tempos da clandestinidade, da Segunda Região e da Frente Leste, muitos militantes já conseguiam perceber que existiam tensões internas. Nós próprios observávamos determinados comportamentos e algumas atitudes que nos pareciam anormais.
Falava sobre essas preocupações com o camarada Mbinda?
Falava. Perguntava-lhe frequentemente o que estava a acontecer. Nessa altura, já se comentava o afastamento do comandante Monstro Imortal e começavam a surgir dúvidas sobre determinadas posições políticas. O comandante Monstro Imortal era meu cunhado. Visitava a nossa casa e nós visitávamos a dele. Mantínhamos uma relação familiar muito próxima. Por isso, acompanhei aqueles acontecimentos com grande preocupação. Ainda hoje lamento profundamente a morte dele. Era um excelente militar e um quadro importante da luta de libertação. O camarada Mbinda dizia-me que existiam comportamentos e atitudes que estavam a gerar preocupação entre as estruturas dirigentes.Mas era um assunto muito sensível. Naquela fase, mesmo os quadros que acompanhavam de perto a direcção não tinham liberdade para discutir publicamente questões internas do partido. Muitas vezes limitávamo-nos a observar e a tentar compreender o que estava a acontecer.
Considera que os problemas eram essencialmente políticos?
Sim! Na minha opinião, muitos dos problemas nasceram a nível das lideranças e das disputas políticas. Não era uma questão dos militantes de base. Os militantes comuns continuavam a trabalhar, a cumprir as suas tarefas e a defender o projecto político pelo qual tinham lutado durante anos. As divergências começaram a surgir sobretudo entre alguns responsáveis que tinham acumulado ressentimentos, frustrações e divergências antigas. É uma fase muito difícil da nossa história e que deve ser analisada com serenidade. Mas continuo a acreditar que, se alguns dirigentes tivessem seguido outros caminhos políticos, muitos dos acontecimentos posteriores poderiam ter tido um desfecho diferente.
Como recebeu a notícia do afastamento de Nito Alves e José Van-Dúnem do Comité Central do MPLA, anunciado no comício de 22 de Maio de 1977?
Foi uma situação difícil.Tenho alguma dificuldade em falar sobre isso, porque não participei directamente naquele acto nem estive presente na manifestação. O que posso dizer é que, dentro das estruturas da Presidência, onde eu trabalhava como activista política e funcionária das comunicações, procurava-se explicar aos trabalhadores a linha política do partido, os objectivos da Revolução e o papel que cada um devia desempenhar. Entre os funcionários da Presidência, não senti grandes tensões. As pessoas procuravam compreender as decisões que estavam a ser tomadas. Mas, naturalmente, na sociedade havia muitas dúvidas. As pessoas faziam perguntas. Queriam saber o que se passava, procuravam explicações. Muitos abordavam-me, porque sabiam que eu trabalhava no Palácio Presidencial. Perguntavam-me sobre o Presidente Neto, sobre as decisões da direcção, sobre os conflitos que começavam a surgir. Contudo, devido à formação que recebemos nas telecomunicações e nas questões de segurança, não era hábito comentar assuntos internos ou transmitir informações reservadas. Por isso, confesso que não me apercebi da profundidade da crise que se estava a formar. O próprio 27 de Maio apanhou-me de surpresa.
Como viveu o dia 27 de Maio de 1977?
Recordo-me muito bem daquele dia. O camarada Mbinda encontrava-se fora, em serviço. Eu saí normalmente de casa para o trabalho. Entrei no carro e segui o trajecto habitual em direcção ao Palácio. Mas, durante o percurso, comecei a sentir que alguma coisa não estava normal. A estrada estava estranhamente vazia. Era como se a cidade tivesse parado. Lembro-me de pensar: “Por que razão sou praticamente o único carro nesta estrada?” À medida que avançava, comecei a sentir uma inquietação difícil de explicar. Cheguei próximo da zona do Largo Primeiro de Maio e tive uma sensação muito forte.
O meu instinto dizia-me para voltar para trás. Ainda hoje não sei explicar o porquê. Estava praticamente a entrar na zona quando decidi inverter a marcha. Fiz meia-volta e regressei. Foi uma decisão tomada por puro pressentimento. Quando comecei a regressar, percebi que havia movimentações estranhas de pessoas e grupos que seguiam numa determinada direcção.
Não compreendia ainda o que estava a acontecer. Pouco depois liguei o rádio do carro. Foi então que comecei a ouvir emissões e mensagens que me fizeram perceber que algo de muito grave estava em curso. Disse para mim mesma: “Luanda está em confusão”.Voltei imediatamente para casa. Lá estavam alguns familiares, entre eles uma tia, uma cunhada e várias crianças. Pouco tempo depois começaram a ouvir-se disparos. Os tiros tornaram-se cada vez mais frequentes. Foi nesse momento que percebi que o país estava a viver uma situação extraordinária. Até então eu não tinha consciência da dimensão da crise. Os acontecimentos apanharam-me completamente de surpresa. Só mais tarde fui compreendendo a verdadeira dimensão do que se tinha passado naquele dia.
O que aconteceu depois de regressar a casa na manhã de 27 de Maio?
Depois de regressar a casa, ainda tentei perceber o que realmente se passava. Passado algum tempo pensei: “Não, vou voltar a sair e tentar saber o que está a acontecer”. Peguei novamente no carro e fui em direcção ao Bairro Nacional. Ali morava a família do comandante Kito. O próprio comandante encontrava-se fora do país, em missão de serviço. Fui apenas para avisar a família. Disse-lhes: “Não saiam de casa. Luanda está em confusão”. Eles responderam que estava bem. Voltei imediatamente para casa e já não saí mais. A partir daí comecei a fazer telefonemas. Liguei para várias pessoas com quem trabalhava e procurei obter informações sobre o que estava a acontecer. Contactei camaradas ligados ao Palácio Presidencial e expliquei que não conseguiria apresentar-me ao serviço, porque a situação na cidade parecia muito grave. A orientação que recebi foi clara: “Não saia de casa”.
Nessa altura, já tinha consciência da dimensão dos acontecimentos?
Não! Sabia apenas que alguma coisa muito séria estava a acontecer. As ruas estavam praticamente vazias, o que não era normal. Havia uma sensação estranha no ambiente. Por isso, comecei também a contactar familiares. Telefonei à minha irmã Luísa para saber como estavam. Perguntei-lhe: “Como estão aí? Está tudo bem?” Ela respondeu que sim. Mas eu já estava desconfiada de algumas situações e evitei prolongar muito a conversa, porque o comandante Monstro Imortal já não vivia com a minha irmã há alguns meses. Eles estavam separados. Ele tinha deixado a residência familiar e passava grande parte do tempo noutro local. Na altura, eu não sabia exactamente tudo o que estava a acontecer, mas era evidente que existiam problemas. Por isso, procurei tranquilizar a minha irmã e disse-lhe para permanecer em casa e evitar qualquer deslocação.
Já existiam sinais de insatisfação política por parte do comandante Monstro Imortal?
Na altura, não era fácil distinguir claramente o que era problema político e o que era problema familiar. O que nós observávamos era que ele aparecia cada vez menos em casa. A família tinha condições para mudar para uma residência melhor, mas ele adiava sempre essa decisão. Dizia constantemente: “Amanhã tratamos disso”. Mas esse amanhã nunca chegava. Afastava-se cada vez mais da vida familiar. Quando eu visitava a minha irmã, muitas vezes ele não estava. Outras vezes aparecia apenas por pouco tempo e voltava a sair. Hoje, olhando para trás, é possível associar alguns desses comportamentos ao contexto político que se vivia na época. Mas naquele momento, nós, familiares, víamos, sobretudo, um homem cada vez mais ausente da sua própria casa.
Chegaram a circular informações sobre o envolvimento da sua irmã nos acontecimentos?
Sim! Chegaram rumores completamente absurdos. Houve quem afirmasse que a minha irmã estaria a comandar um blindado. Ora, ela encontrava-se grávida de quase nove meses. Tinha uma barriga enorme e estava prestes a dar à luz. Era fisicamente impossível. Mais tarde, o nascimento do filho foi tão difícil que foi necessária intervenção médica para provocar o parto. Por isso, quando ouvi essas histórias, percebi imediatamente que muitas informações que circulavam naquele momento eram falsas ou exageradas. Foi um período de enorme confusão, medo e incerteza para toda a gente.
A senhora Luísa Inglês ocupava funções de destaque na OMA nessa altura?
Sim! A camarada Luísa Inglês desempenhava responsabilidades importantes na Organização da Mulher Angolana (OMA). Naquele período, era uma das principais dinamizadoras do trabalho da organização em Luanda e participava activamente nas tarefas de mobilização política e social das mulheres. Por isso, o seu nome era bastante conhecido.
Como ficou esclarecida a acusação de que ela teria sido vista a comandar um blindado durante os acontecimentos de 27 de Maio?
Foi uma situação difícil. Muitas informações falsas circulavam naquele momento. Eu própria procurei esclarecer a questão junto de várias pessoas. Expliquei que a minha irmã se encontrava em estado avançado de gravidez e que estava a poucos dias de dar à luz. Era uma gravidez complicada. Fisicamente, ela não tinha condições para participar em qualquer operação militar, muito menos para comandar um blindado. Durante todo aquele período, mantive contacto permanente com ela. Falávamos regularmente por telefone. Eu perguntava como estava a situação na zona onde vivia e ela informava-me sobre o ambiente no bairro e dentro de casa. Da mesma forma, eu aconselhava-a constantemente: ”Não saias de casa. Mantém-te calma e protege-te”. Por isso, para mim era impossível acreditar naquelas versões. Tratava-se claramente de rumores sem fundamento.
Acredita que essas acusações estavam relacionadas com o facto de ela ser esposa de Monstro Imortal?
Sim! Na minha opinião, esse era um dos factores. O simples facto de ser esposa de Monstro Imortal colocava-a numa posição vulnerável. Havia quem procurasse associá-la automaticamente aos acontecimentos e às acusações dirigidas ao marido. E isso poderia ter tido consequências muito graves. Seria uma injustiça responsabilizá-la por algo em que não participou.
Quando tomou conhecimento da prisão do seu cunhado, Monstro Imortal?
Só tive conhecimento depois dos anúncios oficiais. Tal como a maioria dos cidadãos, acompanhei as informações divulgadas publicamente pelas autoridades. Naquele período, vivíamos momentos de enorme tensão. Durante algum tempo, muitos serviços deixaram de funcionar normalmente e nós próprios tivemos limitações nas deslocações e no acesso aos locais de trabalho. Foi através dos comunicados oficiais e das notícias divulgadas posteriormente que fui tomando conhecimento da situação.
Sendo próxima do Presidente Agostinho Neto e também familiar de Monstro Imortal, alguma vez abordou com o Presidente as posições políticas do seu cunhado?
Nunca. O que nós percebíamos era apenas algum descontentamento e determinadas atitudes que não nos pareciam normais. Mas nunca tivemos conversas políticas profundas com ele. Às vezes, eu procurava conversar de forma informal. Perguntava-lhe por que razão estava mais reservado ou mais distante. Mas ele respondia sempre que não havia problema nenhum. E a conversa terminava aí. Também compreendia que, se existisse alguma movimentação política organizada, ele nunca falaria connosco sobre isso. Eu era esposa de Mbinda, que na altura já exercia funções de direcção junto do Presidente Neto. Por essa razão, era impensável que nos revelasse qualquer plano ou intenção política.
O facto de serem familiares de Monstro Imortal prejudicou a vossa relação com Agostinho Neto?
Nunca. O Presidente conhecia-nos bem. Sabia quem éramos, conhecia o nosso percurso político e a nossa participação na luta. Tinha confiança em nós. Nunca senti qualquer desconfiança ou tentativa de nos associar às posições que eram atribuídas ao meu cunhado. A relação manteve-se normal.
A sua irmã, Luísa Inglês, deixou a coordenação da OMA em 1978. Considera que isso esteve relacionado com os acontecimentos de 1977?
Sim! Na minha opinião, houve uma relação directa. Dentro das estruturas políticas e das organizações de massas, o simples facto de ela ter sido esposa de Monstro Imortal pesou muito. Mesmo depois da separação, muitas pessoas continuavam a identificá-la apenas por essa ligação familiar. Era vista como esposa de um alegado fraccionista. Isso teve consequências. Não tenho receio de o afirmar. Sempre considerei que houve alguma injustiça em relação à minha irmã.
Que consequências concretas enfrentou?
A principal consequência foi o afastamento das funções de direcção na OMA. Mas não sofreu perseguições graves. Posteriormente continuou a desempenhar outras responsabilidades. Foi deputada à Assembleia do Povo e trabalhou numa organização ligada ao sector camponês. Continuou a servir o país. Portanto, houve um impacto político, mas não ficou completamente afastada da vida pública.
Considera que foi tratada de forma injusta?
Sim! Sempre achei que houve injustiça. Muitas vezes as pessoas eram julgadas apenas pelas relações familiares que tinham e não pelos seus próprios actos. No caso dela, acredito que isso aconteceu. Ela continuou a trabalhar e a cumprir as tarefas que lhe eram atribuídas, mas o peso daqueles acontecimentos acompanhou-a durante muitos anos.
in Jornal de Angola