
A recente inclusão anunciada, motivada pelo elevado número de rejeitados, revela uma contradição política profunda: a tentativa de mascarar a exclusão sistemática sob o rótulo de inclusão tardia.
Os que rejeitaram, longe de serem vencidos, emergem como heróis silenciosos de uma resistência ética. Ao recusarem-se a compactuar com um processo que não os reconhecia em sua dignidade plena, assumiram o sacrifício como forma de protesto e de afirmação nacional.
Sua postura não é apenas de renúncia, mas de lucidez diante da grandiosidade histórica dos signatários do Acordo de Alvor, cuja memória exige respeito e coerência institucional.
Neste contexto, as celebrações dos 50 anos de independência de Angola deveriam representar um marco de unidade nacional, de reconciliação histórica e de valorização dos que tornaram possível a libertação.
No entanto, o que se observa é um distanciamento crescente entre os que governam e os que são governados — uma celebração que, ao invés de unir, expõe feridas abertas pela exclusão política e pela falta de reconhecimento dos verdadeiros protagonistas da luta pela independência.
Celebrar uma vitória exige reconhecer todas as fases que a tornaram possível. Não é negociável — muito menos um favor — incluir os nacionalistas cuja atuação foi decisiva e inquestionável para a conquista da soberania nacional.
A tentativa de relegar esses nomes ao esquecimento ou de condicioná-los à conveniência política atual é uma afronta à memória coletiva e à justiça histórica.
Essa tendência de incluir apenas quando a exclusão se torna insustentável socialmente — e politicamente embaraçosa — é sintoma de um modelo de gestão esgotado, que não possui capacidade real de enfrentar os desafios estruturais do país.
Em vez de promover reformas substantivas, opta-se por gestos simbólicos que tentam reparar, sem reconhecer, os danos acumulados.
A inclusão, nesse contexto, não é fruto de justiça, mas de desgaste: uma resposta tardia à pressão social, econômica e moral que se intensifica diante da ausência de soluções concretas.
É uma verdadeira vênia contar com cidadãos que, mesmo diante da marginalização institucional, mantêm postura íntegra e crítica. São eles que, ao reconhecerem sua pequenez frente à história, engrandecem a nação com sua coragem silenciosa.
A sua resistência é um chamado à refundação: não apenas de políticas públicas, mas de valores republicanos que não podem ser negociados em nome da conveniência política.
*Advogado