O memorial da reconciliação ou do revanchismo – Carlos Kandanda
O memorial da reconciliação ou do revanchismo - Carlos Kandanda
JL monu

A «reconciliação», em termos latos, é o estabelecimento das relações amistosas entre pessoas que andavam desavindas. Ou seja, a reconciliação é o acto de convivência, de coexistência pacífica, da recuperação do ânimo e de ter confiança em si próprio e nos outros.

No fundo, a reconciliação é o sentimento muito íntimo que se manifesta no espírito e na alma. Ela tem o domínio sobre a consciência humana, porque inspira o seu pensamento e dinamiza a sua ação.

Logo, a reconciliação não é uma coisa abstrata ou meramente teórica. É algo muito profundo e substancial que assenta na alma humana e que se manifesta nos actos do dia-a-dia. Por isso, a reconciliação não se ilude e nem se oculta, porque ela estimula os sentimentos, as atitudes, as sensibilidades e as acções.

A reconciliação faz-se com a aproximação e com a entrega total e absoluta ao bem comum, evitando a prepotência, o revanchismo e o ódio.

Quem constrói Monumentos gigantescos, cujos interiores estão cheios da maldade, da discriminação, da intolerância e da incriminação dos outros não está a construir a reconciliação e a paz.

Pelo contrário, está a rebuscar o passado que devastou o nosso país desde 1975. Deste modo, está-se a construir um grande castelo na areia que vai desmoronar-se pela tempestade.

Recentemente, no dia 31/10/2026, no encontro com os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, em Viana, o Presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, afirmava num tom muito severo, dizendo: «não é a nossa vontade de incriminar ninguém, – e nenhum dos três cofundadores da Pátria Angolana – Antônio Agostinho Neto, Álvaro Holden Roberto e Jonas Malheiro Savimbi – pelos passivos da guerra». Fim de citação.

Na verdade, a vontade expressa da UNITA é de consolidar a paz e a reconciliação nacional, perdoar-se mutualmente, no espírito profundo e sincero de irmandade e de amor ao próximo.

Pondo o passado conflituoso para trás, tirando grandes lições da história e construir o futuro risonho para todos os angolanos, sem excepção e sem discriminação alguma.

Vejamos, os passivos da guerra foram cometidos por todos três Movimentos de Libertação Nacional durante o percurso prolongando, sinuoso e sangrento da luta pela independência nacional, pela cidadania e pelo pluralismo democrático. Muitos dos passivos da guerra persistiram em pleno período da paz.

Por isso, não há ninguém entre nós que é santo, – e que é imaculado, que esteja com as mãos limpas, sem uma nódoa do sangue dos angolanos – derramado ao longo da odisseia.

Repare que, Angola ficou mergulhada numa guerra atroz, prolongada e devastadora devida a mentalidade segundo a qual, o país pertence a um grupo de pessoas, de uma formação política e com uma base social bem distinta, que goza dos Direitos Humanos e da Cidadania, consagrados no Direito Internacional e na Carta das Nações Unidas.

Enquanto, o restante dos angolanos – da segunda e terceira classes – estão condenados a serem dominados, oprimidos, marginalizados e explorados – sem acesso ao poder político.

Aliás, estamos perante a Roma Antiga que era dividida entre Patrícios (com privilégios políticos e económicos) e Plebeus (oprimidos e explorados).

Este foi a «Doutrina Política» que dividiu o nacionalismo angolano entre o litoral e o interior e entre os assimilados e os indígenas.

O almirante Rosa Coutinho e o Álvaro Cunhal defenderam esta tese neocolonialista durante o processo da descolonização de Angola, em 1975, que ditou o fracasso dos Acordos de Alvor. Abrindo assim o caminho à guerra fria e à guerra civil angolana que devastaram o país e o tecido humano.

Angola pagou muito caro com vidas humanas que foram ceifadas e dizimadas durante quatro décadas de confrontações militares até 2002.

Note-se que, a UNITA foi a maior vítima desta guerra devastadora movida pelo Portugal, pela Rússia e pela Cuba contra os angolanos que não cederam ao neocolonialismo e ao partido único.

A paz e a reconciliação nacional teriam aberto um novo panorama aos angolanos, de aproximar-se, de confraternizar-se, de enterrar os passivos e caminhar de mãos dadas como filhos e filhas da mesma Pátria. Em pleno ambiente da liberdade, da unidade, da dignidade, da igualdade, de amor e da prosperidade.

Logo, é horrendo, neste ambiente melancólico, assistir à construção de uma obra imponente, que custou avultadas somas de dinheiros dos cofres públicos, concebida apenas para incriminar a UNITA e Jonas Malheiro Savimbi, com que se celebrou os Acordos de Alvor e tantos outros Acordos da Paz e da Reconciliação Nacional.

Repare que, Jonas Savimbi entregou a sua vida em prol da paz e da reconciliação entre os Angolanos desavindos. Ele fê-lo em plena consciência e dizê-lo antecipadamente sobre o seu Calvário.

Nesta referência, Dr. Jonas Malheiro Savimbi dizia: “Quando a paz chegar, eu não estarei aqui, porque já terei partido. Esta paz que depende do meu passamento físico não é a verdadeira paz. Vocês lembrarão das minhas palavras. Hoje não, mas amanhã hão de lembrar.” Fim de citação.

Aliás, na XVI Conferência Anual da UNITA, no dia 08 de Abril de 2001, na margem esquerda do rio Lungué-Bungo, Dr. Jonas Savimbi falou extensivamente sobre os passivos da guerra, pediu perdão ao povo angolano e deixou «diretrizes» bem-definidas sobre o caminho que o Partido havia de seguir após a sua morte.

Um caminho que deveria buscar a paz verdadeira e construir pedra por pedra a reconciliação nacional. Esta foi a vontade expressa do Dr. Savimbi naquela conferência histórica, realizada próximo do Muangai, onde a UNITA foi fundada a 13 de Março de 1966.

Portanto, somente Jonas Malheiro Savimbi e a UNITA tiveram a coragem e o espírito patriótico de fazê-lo. Pois, nenhum outro movimento de libertação nacional teve ousadia de vir a público falar abertamente dos passivos da guerra, do perdão mútuo e da reconciliação genuína e verdadeira.

Contrariamente, o MPLA não teve coragem e o espírito patriótico de assumir formalmente os seus passivos, sobretudo do 27 de Maio, a maior carnificina que uma vez aconteceu em Angola.

Estranhamente, no «interior» do Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, inaugurado com pompa e circunstância no dia 14 de Outubro de 2026, em Luanda, não consta nada sobre as vítimas deste genocídio e de outros massacres que são bem conhecidos e bem registados.

Portanto, a atitude do presidente do MPLA, Joao Manuel Gonçalves Lourenço, de construir o memorial com «finalidade única» de incriminar a UNITA e Jonas Malheiro Savimbi, constitui um atentado ao processo da paz e da reconciliação nacional. Porém, a história registou e cada um entra na história pela sua porta, escolhida livremente pela própria pessoa.

Somente, este espírito de ódio excessivo e de revanchismo não constrói a paz, não reconcilia os angolanos, não une a nação angolana e muito menos inspira o patriotismo.

Pelo contrário, está-se a semear as ervas daninhas que minam a reconciliação nacional e corroem os alicerces da unidade nacional e da estabilidade política, social e económica.

Em síntese, no Informe do Dr. Jonas Malheiro Savimbi na XV Conferência Anual da UNITA, no Bailundo, no dia 17 de Janeiro de 1996, ele chamava atenção ao seguinte, cita: “temos que acautelar o futuro do nosso Partido, porque é uma Instituição. A paz não pode ser a razão da destruição da UNITA. Se for o objetivo, então não teremos a paz, então não teremos a estabilidade, então não teremos vivência para podermos conviver.” Fim de citação.

Na verdade, esta preocupação do Dr. Jonas Malheiro Savimbi contínua bem actual hoje. Há um amplo programa que concentra todos os esforços redobrados de destruir a UNITA.

A construção do Memorial, acima referido, visou essencialmente incentivar o espírito de ódio e do revanchismo contra a UNITA e contra o Presidente-Fundador.

Lá dentro do “edifício” está bem estampado e devidamente concebidos os “retratos” que sirvam de instrumentos devastadores para uma campanha sistemática de incriminação do Dr. Jonas Savimbi e da UNITA.

Interrogo-me: onde estarão os mandamentos do Bicesse, de Lusaka e do Luena? Que patriotismo é esta que cultiva o ódio na sociedade?

Por outro lado, há um conjunto de novos projetos políticos, que nascem como cogumelos (venenosos & alucinógenos), que concorrem unicamente ao combate contra UNITA e contra Adalberto Costa Júnior – no embate frontal de 2027. Para este efeito, todas as baterias estão viradas à incriminação e diabolização da UNITA.

Seja qual for, a UNITA é um «Gigante» que não se destrói tão facilmente como muitos sonham. A UNITA sabe como defender o seu «Projecto de Muangai», a sua «Integridade Moral» e a sua «Dignidade» em todos os palcos internos e Externos.

Enfim, no meio de tudo isso, o Povo Angolano já acordou há muito tempo e dificilmente poderá ser manipulado como foi no passado. Há victória para nós.

*Ex-deputado à Assembleia Nacional

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