
Em Angola, os processos judiciais têm um estranho comportamento: alguns morrem rapidamente, outros desaparecem durante anos… e certos processos acordam exatamente quando a política começa a mexer. O caso envolvendo o general Higino Carneiro levanta precisamente essa pergunta incómoda.
Segundo informações tornadas públicas, a Procuradoria-Geral da República terá sido orientada a reativar um processo antigo relacionado com a aquisição de viaturas, mesmo depois da retirada da queixa pelo próprio empresário envolvido. E aqui começa o verdadeiro debate.
Porque juridicamente pode até existir enquadramento para o Estado continuar a investigação. Isso acontece em muitos países. O problema não é apenas legal. O problema é político.
E em Angola, quando justiça e política aparecem demasiado sincronizadas, o povo já aprendeu a desconfiar.
Higino Carneiro não é um cidadão qualquer. É uma figura histórica do MPLA, um homem com influência militar, política e empresarial, e alguém cujo nome voltou recentemente ao centro das conversas sobre sucessão, equilíbrio interno e futuro do partido no poder.
Coincidência?
Talvez.
Mas em política africana, coincidências repetidas costumam ter patrocionador. O mais interessante neste caso não é apenas o processo. É a mensagem.
Quando começam a surgir notícias sobre possível bloqueio de contas, limitações de saída do país e envolvimento de familiares, já não estamos apenas perante um processo judicial comum. Estamos perante uma demonstração de força.
O Estado deixa de comunicar apenas através dos tribunais. Passa a comunicar através do medo. E esse é sempre um terreno perigoso. Porque há uma diferença enorme entre combater corrupção… e gerir adversários internos.
Se o combate à corrupção parecer seletivo, perde força moral. Se parecer estratégico, perde credibilidade. E se o povo começar a acreditar que alguns processos são ativados conforme conveniências políticas, então a justiça deixa de ser vista como justiça — e passa a ser vista como arma.
João Lourenço construiu grande parte da sua imagem pública em torno da luta contra corrupção e do confronto com figuras antes consideradas intocáveis. No início, muitos angolanos apoiaram essa postura. Havia sede de mudança. Havia esperança de limpeza institucional.
Mas hoje a pergunta já não é: Há combate à corrupção? A pergunta é: Quem decide contra quem ela avança?
Porque quando determinados processos aparecem exatamente nos momentos de maior tensão política interna, até os mais distraídos começam a levantar a sobrancelha.
E há um detalhe que o poder às vezes esquece: figuras históricas humilhadas raramente desaparecem silenciosamente.
Algumas recuam. Outras reorganizam-se. E algumas transformam-se em símbolos para sectores insatisfeitos dentro do próprio sistema. Talvez o maior risco para Angola já nem seja a corrupção.
Talvez seja a erosão da confiança pública nas instituições.
Porque um país aguenta pobreza. Aguenta crises. Aguenta austeridade. Mas quando o cidadão começa a acreditar que a justiça depende do calendário político… o sistema inteiro começa lentamente a perder autoridade. E isso nenhum tribunal consegue condenar.