
Num belo dia — daqueles em que até o sol parece conspirar contra a existência — um homem acorda decidido: hoje é o dia em que vai pôr fim à sua vida. Nada de cartas de despedida, nem melodramas. Apenas ele, uma corda e uma árvore bem longe da civilização, porque até para morrer há quem prefira a privacidade.
Lá vai ele, determinado, mata adentro, com a corda ao ombro como quem vai pendurar roupa no estendal. Encontra finalmente a árvore ideal: robusta, discreta, com aquele charme rústico que qualquer enforcado exigente aprecia. Está prestes a dar o nó final — literal e metaforicamente — quando, do nada, ouvem-se tiros. PUM! PUM! PUM!
E o que faz o nosso protagonista? Foge. Corre como se tivesse acabado de ver o IRS a chegar-lhe à porta. Corre como quem quer viver. Corre como quem, afinal, não estava assim tão convencido da ideia de morrer.
E é aqui que a pergunta se impõe, com toda a força da lógica que só o absurdo consegue: se o homem queria morrer, por que raio fugiu dos tiros? Medo de morrer antes de se matar? Receio de que o assassino não respeitasse o protocolo do suicídio planeado?
Talvez tenha sido o instinto. Ou talvez tenha percebido, naquele momento, que morrer é uma coisa… mas ser morto é outra bem diferente. Afinal, há quem queira sair de cena com dignidade, não aos tiros como figurante num filme de acção de baixo orçamento.
Depois de correr como nunca correra antes — nem mesmo quando fugia das responsabilidades da vida — o homem encontra abrigo atrás de uma rocha, ofegante, com o coração a bater como tambor em desfile militar.
E ali, entre o medo e o suor, algo muda. Não é uma epifania cinematográfica, nem uma revelação divina. É apenas um pensamento simples, quase banal: “Se eu estou a fugir da morte… será que ainda quero viver?”
A pergunta ecoa. Não como um trovão, mas como uma gota persistente que cai no mesmo lugar. E cada batida do coração parece responder: sim. Sim, talvez. Sim, por enquanto. Porque há uma diferença abismal entre escolher morrer e ser escolhido pela morte. Uma coisa é encarar o abismo por vontade própria; outra é ser empurrado por forças externas, sem aviso, sem controlo, sem poesia.
E então, o homem levanta-se. Não como quem venceu uma batalha, mas como quem decidiu adiar a guerra. A corda continua ali, agora menos ameaçadora, mais simbólica. Um lembrete de que a decisão de morrer não é tão simples quanto parece nos manuais de tragédia. Há nuances. Há medos. Há tiros que nos fazem correr.
Talvez, naquele momento, ele tenha entendido que o desejo de morrer não é sempre absoluto. Que há dias em que a dor grita mais alto, mas também há dias em que o instinto sussurra: “Ainda não.” E que fugir da morte, mesmo quando se quer morrer, pode ser o primeiro passo para reaprender a viver.
O homem volta para casa. Sem glória, sem redenção, sem finais felizes. Mas com uma história. Uma história que começa onde ele pensava que terminaria. E talvez, só talvez, essa seja a ironia mais bonita da vida: às vezes, é preciso estar à beira do fim para perceber que ainda há caminho.
*Comunicólogo