
O fenómeno das influenciadoras digitais em Angola começou por nomes como Juddy da Conceição, Elizângela Gomes, Genilma Campos, Neide Sofia e Londrina Kelly. Eram referências, sobretudo, pelas publicações sensuais que faziam circular nas redes sociais.
A beleza física era inegável, mas a exposição do corpo sobrepunha-se, muitas vezes, ao talento artístico que algumas também revelavam na música, na televisão e na rádio, bem como na representação. Não faltaram casos de vídeos íntimos vazados, que transformaram a intimidade em espectáculo público.
A estratégia era clara. Exibir o corpo quase nu garantia seguidores, engajamento e uma visibilidade que se convertia em contratos publicitários, representação de marcas e ganhos financeiros. O corpo transformava-se em capital social e económico.
No entanto, o tempo mostrou que nem todas estavam preparadas para lidar com o peso dessa escolha. Neide Sofia arrependeu-se recentemente pela forma como se expunha, reconhecendo que tal prática a poderia marcar para sempre, inclusive diante dos filhos.
Outras podem não ter verbalizado arrependimento, mas evitam hoje repetir aquelas publicações.
O que causa estranheza é perceber que, anos depois, a mesma fórmula continua a ser seguida. A talentosa cantora Bruna Amado tornou-se o rosto mais visível dessa repetição.
O seu corpo fala mais alto do que as suas músicas, numa sociedade que continua a premiar a exposição do íntimo com atenção, fama e contactos.
Este texto não condena escolhas individuais, mas questiona um modelo social que associa sucesso feminino quase sempre à exploração do corpo.
É legítimo reflectir sobre até que ponto a objectificação do corpo contribui para a consolidação de carreiras artísticas ou se, pelo contrário, aprisiona as mulheres a uma imagem que dificilmente conseguirão desfazer no futuro.
*Pintor de letras