Obscurantismo, redes sociais e o risco da xenofobia em Angola – Silva Costa
Obscurantismo, redes sociais e o risco da xenofobia em Angola - Silva Costa
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O obscurantismo entendido como a recusa da razão e da ciência em favor de crenças irracionais reaparece com novas roupagens no nosso continente.

Em Angola, as redes sociais têm sido palco de uma febre preocupante: a difusão da ideia de que cidadãos da República Democrática do Congo (RDC) possuem poderes sobrenaturais capazes de “encostar” noutras pessoas e provocar o encolhimento dos órgãos genitais.

Este fenómeno é um exemplo claro de obscurantismo contemporâneo. Uma crença sem qualquer fundamento científico espalha-se rapidamente, alimentada por vídeos virais e comentários alarmistas. O resultado é um ambiente de medo e desconfiança que fragiliza a sociedade em vez de a proteger.

O maior perigo não está apenas na superstição, mas nas suas consequências sociais. A propagação desta narrativa pode fomentar xenofobia contra cidadãos congoleses em Angola, repetindo padrões já vistos na África do Sul, onde boatos e preconceitos alimentaram ondas de violência contra imigrantes. Rumores irracionais, quando não enfrentados, transformam-se em perseguições e ataques físicos.

Angola, país marcado pela diversidade, corre o risco de ver a sua coesão social minada por discursos de exclusão. O Presidente moçambicano Daniel Chapo já se posicionou sobre este fenómeno, alertando para os riscos da crença no “encolhimento dos órgãos genitais”.

Ao reconhecer publicamente o absurdo da narrativa, Chapo demonstra a importância de líderes políticos assumirem uma postura clara contra o obscurantismo. Quando as autoridades se calam, o rumor ganha força; quando se posicionam, a razão encontra espaço para prevalecer.

É urgente que as autoridades angolanas compreendam o risco da proliferação desta crença. Campanhas de esclarecimento devem reforçar que não existe qualquer base científica para tais boatos.

Combater a desinformação exige acção rápida contra conteúdos que incitam ao ódio ou à violência. Angola deve valorizar a diversidade cultural e proteger os cidadãos estrangeiros que aqui vivem.

O obscurantismo, seja medieval ou digital, produz sempre os mesmos efeitos: medo, atraso e violência. Cabe às autoridades, aos meios de comunicação e à sociedade civil impedir que uma superstição se transforme em xenofobia. Angola não pode permitir que crenças irracionais comprometam a paz social e a dignidade humana.

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