
A Polícia Nacional em Luanda desmentiu, esta terça-feira, informações postas a circular nas redes sociais sobre alegados grupos envolvidos na extracção ou desaparecimento de órgãos genitais de cidadãos na capital angolana, considerando tratar-se de uma campanha de desinformação destinada a provocar medo e pânico social.
O porta-voz da corporação em Luanda, superintendente-chefe Nestor Goubel, afirmou que as autoridades investigaram denúncias recentes registadas no município do Kilamba Kiaxi e concluíram não existir qualquer evidência que sustente os relatos divulgados nas plataformas digitais.
Segundo a Polícia, nas últimas 24 horas foram analisados pelo menos dois casos relacionados com alegados desaparecimentos de órgãos genitais. Após observação e verificação das supostas vítimas, as autoridades concluíram que os cidadãos encontravam-se “em perfeitas condições físicas e de saúde”.
“Trata-se de informações falsas criadas para gerar alarme social”, sublinhou Nestor Goubel, comparando o actual fenómeno aos boatos que circularam em Luanda nos anos 90, como o conhecido caso do “caixão vazio”, que igualmente provocou pânico colectivo entre a população.
O reaparecimento deste tipo de rumores em Angola coincide com episódios semelhantes registados nas últimas semanas em várias províncias do país, incluindo Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico, onde falsas acusações associadas a supostos actos de feitiçaria resultaram em agressões e detenções.
A Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP) já havia esclarecido, em pronunciamentos anteriores, que nenhum caso foi comprovado pelas autoridades ou por exames médicos realizados às alegadas vítimas.
Especialistas citados pela imprensa angolana e moçambicana relacionam o fenómeno com a chamada “Síndrome de Koro”, um transtorno psicológico associado a estados de ansiedade colectiva e crenças culturais, em que indivíduos acreditam que os órgãos genitais estão a retrair-se ou desaparecer, apesar de não existir qualquer alteração física real.
Nos últimos dias, organizações sociais e religiosas começaram igualmente a manifestar preocupação com os efeitos dos boatos. Num comunicado enviado à imprensa, a comunidade AFRIKAna repudiou “falsas acusações e informações levianas” que têm circulado nas redes sociais, alertando para o risco de violência contra cidadãos inocentes.
Segundo a nota, um membro da organização identificado por Rimas Kimbangu terá sido alvo de perseguições e ameaças devido às informações difundidas online.
A associação advertiu ainda que os autores e divulgadores de conteúdos falsos poderão ser responsabilizados criminalmente pelos danos causados, apelando à população para evitar actos de justiça popular e partilha de informações sem confirmação oficial.
O fenómeno tem igualmente provocado episódios de violência noutros países africanos. Em Moçambique, autoridades confirmaram recentemente dezenas de mortos e feridos em consequência de agressões motivadas por boatos semelhantes sobre o alegado desaparecimento ou atrofiamento de órgãos genitais masculinos.
Face ao clima de tensão, a Polícia Nacional apelou à serenidade da população angolana, recomendando que qualquer situação suspeita seja comunicada directamente às autoridades competentes, evitando a disseminação de conteúdos falsos nas redes sociais.