
Rafael Massanga Savimbi, filho do fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, anunciou nesta terça-feira, 7 de Outubro de 2025, a sua pré-candidatura à presidência da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), prometendo renovar o partido “sem romper com a sua história” e unir “a força dos ancestrais à esperança das novas gerações”.
O anúncio foi feito através de um vídeo publicado nas redes sociais, um dia antes do início oficial do processo de recepção das candidaturas ao XIV Congresso Extraordinário da UNITA, que terá lugar entre os dias 28 e 30 de Novembro, em Luanda.
Com esta declaração, Rafael Savimbi torna-se o primeiro militante a formalizar a intenção de concorrer à liderança do maior partido da oposição.
O actual presidente, Adalberto Costa Júnior, deverá igualmente recandidatar-se, embora ainda não o tenha confirmado oficialmente.
As candidaturas serão recebidas até 26 de Outubro, seguindo-se um mês de campanha interna entre 27 de Outubro e 26 de Novembro, conforme o calendário divulgado pela Comissão Preparatória do Congresso.
“Respondo ao chamado da história”
No vídeo de 12 minutos, o pré-candidato abre a sua declaração com um tom simbólico e introspectivo, evocando o legado histórico da UNITA e a figura do seu pai, Jonas Savimbi, cuja imagem permanece profundamente ligada à génese e identidade do partido.
“Cresci rodeado de homens e mulheres de coragem, que forjaram um projecto no seu tempo, o Projecto de Muangai”, afirmou Rafael Savimbi, recordando a fundação da UNITA a 13 de Março de 1966.
“Com apenas 12 anos, eu escolhia o silêncio para imaginar aquele momento. Sentia, no mais profundo do meu coração, a força de jovens de visão firme, decididos a escrever uma nova história. Percebia que aquela história não pertencia apenas ao passado, ela chamava por mim”, disse.
Para Rafael Savimbi, a sua decisão “não é um gesto de ambição pessoal, mas um compromisso moral com a memória dos que tombaram pela liberdade e com os jovens que hoje clamam por um futuro melhor”.
“Essa glória iluminou a minha infância, moldou a minha consciência e fez nascer em mim a certeza de que um dia teria de responder ao chamado da História, dos meus ancestrais e dos meus compatriotas”, declarou.
“Muangai é liberdade, democracia e igualdade”
Durante a sua intervenção, o pré-candidato dedicou parte do discurso à reinterpretação do ideário de Muangai, que considera “a espinha dorsal da UNITA”.
“Muangai é liberdade e independência total para os homens e para a Pátria-mãe; é democracia assegurada pelo voto do povo; é soberania expressa na vontade dos angolanos; é igualdade de todos na terra do seu nascimento”, sublinhou.
Savimbi sublinhou ainda que a UNITA deve “preservar os valores que a fundaram, mas adaptá-los ao século XXI”, defendendo um partido mais moderno, inclusivo e atento às novas dinâmicas sociais.
“Trago comigo o legado de coragem, disciplina e visão estratégica dos meus ancestrais, mas também a responsabilidade de o actualizar ao nosso tempo, com ideias novas, práticas e inovadoras para os desafios actuais do país”, enfatizou.
Apelo à juventude e à alternância política
Rafael Savimbi afirmou que a sua pré-candidatura representa “a voz de uma nova geração”, que cresceu “com as marcas da guerra”, mas traz “a ousadia da paz e da inovação”.
“A juventude angolana precisa de ser o motor da transformação política e económica. É preciso investir na educação, na ciência, na tecnologia e no empreendedorismo. A juventude deve ser protagonista, e não mera espectadora da história”, defendeu.
O político aproveitou ainda para deixar críticas à governação do MPLA, que, segundo disse, “continua a empobrecer os angolanos, 50 anos depois da independência”.
“Depois de meio século, o mesmo partido continua no poder, explorando e sufocando o cidadão. O Governo falhou, e Angola vive hoje um drama nacional. É hora de dizer basta. Basta das mesmas pessoas e das velhas práticas”, afirmou.
Para Rafael Savimbi, o próximo congresso da UNITA “pode representar uma viragem histórica”, capaz de conduzir o país à tão desejada alternância política.
“Mais do que uma disputa interna, este Congresso é uma oportunidade para realizarmos a alternância política e construirmos o futuro de estabilidade que os angolanos merecem. Todos contam neste processo. Todos são importantes”, enfatizou.
Reconhecimento aos antigos líderes da UNITA
O pré-candidato fez também questão de reconhecer publicamente o contributo dos antigos dirigentes do partido, entre eles Paulo Lukamba “Gato”, Isaías Samakuva e Adalberto Costa Júnior, a quem elogiou pela “entrega, coragem e patriotismo”.
“A todos estes ilustres filhos de Angola, expresso profundo reconhecimento e apreço. A UNITA sobreviveu porque soube adaptar-se e manter a coesão interna em momentos de incerteza. Agora, o desafio é renovar sem perder a identidade”, assegurou.
Um partido entre o passado e o futuro
Analistas políticos ouvidos pelo Imparcial Press consideram que a pré-candidatura de Rafael Savimbi introduz uma nova dinâmica interna no seio da UNITA, ao colocar lado a lado “a herança histórica e o desafio da modernização política”.
Para o politólogo Daniel Chimbili, “a entrada de Rafael Savimbi na corrida é altamente simbólica, porque representa o reencontro do partido com as suas origens, mas também um teste à maturidade democrática da UNITA”.
“Se a sua candidatura for gerida de forma aberta e democrática, poderá reforçar o espírito de unidade. Caso contrário, poderá acentuar divisões latentes entre gerações políticas dentro do partido”, observou o especialista.
O XIV Congresso Extraordinário da UNITA ocorre num contexto de transição interna e debate sobre liderança e estratégia, após um ciclo eleitoral marcado por tensões políticas e desafios de organização.
Até ao momento, Rafael Savimbi é o primeiro militante a declarar publicamente a sua intenção de concorrer, enquanto o actual líder, Adalberto Costa Júnior, deverá oficializar a sua recandidatura nos próximos dias.
O processo de candidaturas decorre até 26 de outubro, seguindo-se um mês de campanha interna. O congresso – previsto para 28 a 30 de novembro – poderá definir o rumo político do principal partido da oposição e, potencialmente, reconfigurar o xadrez político nacional antes das próximas eleições gerais.
“Todos contam”, concluiu Rafael Savimbi. “Todos contam para construir o país que queremos, para edificar a Angola que merecemos e garantir um futuro melhor para todos.”