Rosita, a filha do Palanca que morreu por investir no seu bairro – Nguindo António
Rosita, a filha do Palanca que morreu por investir no seu bairro - Nguindo António
enterro

Cada bairro tem a sua história. Mais do que ninguém, os moradores conhecem a realidade do lugar onde vivem. Foi nesta parcela do município do Kilamba Kiaxi, Palanca, que nasceu, cresceu e viveu Rosita – uma jovem linda, talentosa, inteligente e muito visionária.

Desde cedo, destacou-se pela determinação e persistência. Devido à universidade e outros espaços importantes que frequentava, passou a entender melhor como funciona o mundo.

A partir dessa experiência, decidiu erguer o seu primeiro negócio: um espaço de vendas de refeições e bebidas. O sucesso foi imediato. O Palanca é um bairro de gente que chega tarde a casa e foi no cantinho de Rosita que muitos encontraram a refeição que lhes confortava a noite.

A simpatia da jovem e a qualidade da comida atraíam não só vizinhos, mas também clientes vindos de várias zonas de Luanda. Com o tempo, expandiu-se: abriu um salão de beleza, depois iniciou a venda de roupas, cabelos e acessórios de moda, viajando ao Brasil, China, Turquia e Dubai para abastecer os seus negócios.

Tudo o que conquistava erguia no Palanca, sempre a partilhar cada vitória com os vizinhos e amigas. Não escondia nada.

Mas o brilho de Rosita começou a despertar invejas. Passou a incomodar. Vieram as primeiras difamações, lançadas por pessoas muito próximas.

Acusavam-na de viver às custas de homens ricos, marimbondos e empresários estrangeiros. Outras diziam que prosperava porque roubava a sorte das amigas.

A fama espalhou-se e as próprias amigas começaram a sabotar-lhe, às escondidas, os negócios. Vandalizaram quase tudo. Queiram as suas lojas.

Os pais, preocupados, pediam-lhe para sair do bairro. Mas Rosita recusava-se:

Quero ajudar o Palanca a crescer. Quero brilhar aqui, onde nasci. Mas os familiares não me querem deixar crescer.

O preço dessa decisão foi pesado. Após perder quase tudo, mergulhou numa depressão profunda, chegando a pensar em tirar a própria vida. Mesmo assim, algumas amigas – que choravam com ela, que aparentavam solidariedade – foram mais além: lançaram-lhe “tala”( mina tradicional), para a destruir por completo.

Com força própria, Rosita voltou a erguer-se. Tinha viagem marcada para a Turquia a 10 de março de 2021. Dois dias antes, recebeu uma surpresa: as amigas organizaram uma festa de aniversário antecipada para celebrar a sua recuperação.

Foi nessa noite que a sua história terminou. Rosita foi envenenada. Quando começou a sentir-se mal foi, imediatamente, isolada do local pelas mesmas amigas que tanto confiava os seus segredos.

Impediram que fosse socorrida a tempo. Apenas quando já não respirava, puseram-se a pedir socorro e a chorar. No hospital, nada havia a fazer.

O bairro inteiro chorou. A jovem mais simpática, generosa e trabalhadora do Palanca tinha sido enterrada devido à inveja. Ninguém hesitou em acusar Pemba, a amiga que organizara a festa.

A casa dela foi destruída, roubaram-lhe tudo e esteve à beira de ser morta pelos vizinhos e amigas. Foi presa como principal suspeita.

Mais tarde, a verdade veio à tona: Pemba era inocente. As verdadeiras culpadas eram aquelas que choravam mais alto no funeral, aquelas que partilhavam risos sempre que Rosita conquistava algo.

Foram elas que sabotaram os negócios, que a envenenaram e que receberam ainda parte parte dos seus negócios, dados de coração pelo pai, como forma de agradecimento pelo apoio dado à filha.

Para os pais, elas eram como que irmãs de Rosita. Em virtude disso, mereciam receber algumas recomendações dela.

Hoje, vivem na Europa, fugidas à justiça. Pemba, a única amiga leal, cumpre pena na Comarca de Luanda por um crime que não cometeu. A dor ficou nos pais.

A mãe, entre lágrimas, transformou o choro em protesto:

Será que é pecado se destacar num bairro onde os jovens não se esforçam? Que mal minha filha cometeu por ser inteligente, generosa e linda? É esse o castigo para quem trabalha com dignidade? Elas podem fugir para França, podem fugir até para a lua, mas o sangue dela vai persegui-las. E um dia, vão pagar!

O pai, já sem forças, ergueu o desespero em acusação pública:

Sempre lhe disse: não conta teus projectos a ninguém. Quer viajar, viaja só, minha filha. Sempre lhe falei que é arriscado meter dinheiro nesse bairro. Ela não ouvia. Pensava que fossem os familiares, afinal eram as melhores amigas. Nzambe azali kokanga misu te…, traduzindo: Deus não dorme. Ele vai abrir os olhos da justiça.

O choro daquela família não é apenas deles. É o choro de muitos pais que enterram filhos por causa da inveja, da maldade e da indiferença de uma sociedade que normaliza o ódio.

O Palanca, como tantos outros bairros, carrega a ferida de Rosita: a prova de que, em Angola, brilhar em certos bairros pode ser sentença de morte.

Cada um conhece a realidade do local onde vive.

*Pintor de letras

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