Tio Santos: o messias que chegou ao Belo Horizonte com uma Hillux – Laurindo Ihanjica
Tio Santos: o messias que chegou ao Belo Horizonte com uma Hillux – Laurindo Ihanjica
Laurindo Ihanjica

Ó meu querido filho, não ouses continuar a recusar-se à verdade. Acredite que a história é a aproximação dos factos“, assim nos recordava, com a sua habitual firmeza, o nosso eterno professor Sabino Rangel Canivete, homem de saber e de palavra, cuja memória ainda ecoa nas salas do Instituto Superior Politécnico do Bié.

Sempre que abordava os meandros da narrativa histórica, insistia que, ao se referir aos acontecimentos do passado, o mais sensato seria situá-los no século correspondente, em vez de citar datas exactas.

Dizia, por exemplo, que não fazia sentido afirmar que Diogo Cão “descobriu” Angola em 1482, até porque, como se descobre um país que já existe? O correcto, segundo ele, seria dizer “século XV”, evitando assim os riscos da distorção ideológica que tantas vezes contaminam os registos históricos.

Era o ilustre professor Canivete que, posteriormente, por ironia do destino da vida, seria o meu colega pela Administração Municipal do Cuito. E digo-o com muito prazer porque para mim, como seu ídolo, foi uma grande honra privar com o mestre. Ele enquanto director municipal da Cultura e Turismo, e eu na condição de director do Gabinete de Comunicação Social, a falar para mim na sala, em reação a um debate aceso que a gente levantara.

Estávamos nós no primeiro ano de Comunicação Social, na aula de História Nacional. Era o delegado da turma a “discutir”, diga-se, uma discussão saudável com o mestre.

Essa mesma lógica aplica-se ao quotidiano. Quando alguém afirma que um bebé nasceu às dez horas, quem pode garantir que esse foi o momento exacto? Terá sido quando a mãe entrou em trabalho de parto? Quando o médico anunciou o nascimento? Ou quando os familiares se aperceberam do acontecimento?

A verdade é que, sobre quase tudo, temos apenas aproximações. A única certeza que nos resta é a da morte.

Neste mundo — e talvez noutros que os cientistas ainda tentam decifrar — ouvimos falar de tudo: do sublime ao grotesco, do divino ao absurdo. Em 2015, aqui mesmo no Bié, um ancião, levado pela fé cega num falso profeta que anunciava o regresso de Jesus para aquele ano, vendeu todos os seus bens — carros, terrenos, casas — acreditando que o fim estava próximo.

Quando percebeu que tudo não passava de uma mentira, chorou como uma criança. Um exemplo de como a esperança, quando mal dirigida, pode ser cruel.

Mas há também histórias que nos elevam. Como a do Bom Samaritano, que ajudou sem esperar nada em troca, gesto raro nos dias que correm. E há outras que nos arrepiam, como a ganância que transforma o homem em lobo do seu semelhante. “Homo homini lupus”, dizem os latinos.

Não faltam exemplos. Na semana passada, segundo a publicação feita pelo amigo Vasco Lucamba Milton na sua conta do Facebook, um motoqueiro dado como desaparecido foi encontrado morto no município do Chitembo. A ganância mata.

Contudo, há experiências que nos reconciliam com a humanidade. Há cinco meses, comecei a percorrer diariamente a rota entre Cuito e o município do Belo Horizonte, por razões profissionais. E foi nesse trajecto que conheci uma figura singular: Miguel dos Santos, mais conhecido por todos por “Tio Santos”.

Tio Santos, que nasceu de Rodrigues Cinco e de Teresa Nachilenga, no município da Nharea (por sinal, conterrâneo do nosso eterno jornalista da Rádio Nacional de Angola, António Muachilela), no dia 1 de Junho de 1969.

Escolheu, desde a tenra idade, o município do Cuito para viver e trabalhar como motorista — ou, como se diz por cá, como “chofér de praça”.

Entretanto, há 17 anos que opera na rota Cuito–Belo Horizonte, desde os tempos em que viajar por aquelas bandas era uma verdadeira odisseia.

As estradas, em péssimo estado, tornavam o percurso uma aventura. Mas ele, movido por um patriotismo raro, nunca abandonou o volante da sua Hillux, modelo 2.4, cuja matrícula é KEB – 16 – 52.

Não o fazia apenas pelo dinheiro. Ignorava os buracos, enfrentava chuvas torrenciais e atravessava estradas alagadas com uma determinação que não se aprende nos manuais de condução.

Por vezes, o carro atolava e a noite caía sobre ele e os passageiros, obrigando-os a pernoitar no meio da estrada, sob o céu inclemente do Bié. Mas nem isso o demovia.

Se a estrada principal entre Cunhinga e Belo Horizonte se tornava intransitável, Tio Santos encontrava alternativas: desviava pela comuna do Trumba, já no município do Cuito, e seguia pelos becos da aldeia da Catama, até alcançar o destino. Era como se conhecesse cada curva, cada pedra, cada suspiro da terra.

Foi nesse vai-e-vem que nos tornámos amigos. A minha nova rotina profissional levou-me, desde o passado dia 15 de Abril de 2025 até à data presente, ao Belo Horizonte, e foi nesse percurso que descobri não apenas um motorista, mas um homem de rara estatura moral.

A sua viatura, mais do que um meio de transporte, tornou-se um espaço de encontro, de partilha, de humanidade. Ali, entre conversas soltas e silêncios cúmplices, percebi que Tio Santos não é apenas querido, é venerado. Até os mais velhos o tratam por “tio”, não por convenção, mas por reverência.

A sua presença é tão marcante que, para muitos, ele é uma espécie de Moisés moderno. Não conduz o povo de Canã para a terra prometida, mas leva professores, enfermeiros, comerciantes e sonhadores pelas estradas que dão para o Belo Horizonte, com a mesma fé e entrega.

E se os textos sagrados nos dizem que o Filho do Homem pode regressar sob formas inesperadas — como um ladrão, ou como um simples homem do povo — então quem somos nós para duvidar?

Não me crucifiquem por pensar, ainda que por breves instantes, que Tio Santos é o Messias que esperávamos. Porque há algo de divino na sua entrega, na sua bondade, na forma como transforma o quotidiano em milagre.

Os anjos, dizem, manifestam-se de muitas maneiras. E ele, com a sua Hillux cansada e o coração cheio, é prova viva de que ainda há graça neste mundo.

Vivemos tempos de incerteza, de pressa e de desconfiança. Mas há gestos que nos devolvem a fé, há presenças que nos devolvem o sentido. Tio Santos é uma dessas presenças.

Não é apenas o homem que conduz uma Hillux pelas estradas do Belo, é o homem que conduz esperança, que transporta dignidade, que carrega, no porta-bagagens da sua alma, a bondade que tantos julgavam extinta.

A sua viatura, já com os sinais do tempo gravados na lataria, tornou-se símbolo de resistência e de serviço. Não há quem não o conheça. Não há quem não tenha uma história para contar sobre ele.

Há quem recorde o dia em que, mesmo sem combustível, ele empurrou o carro até à próxima aldeia, só para não deixar os passageiros ao relento.

Há quem fale do pão que partilhou com desconhecidos, da água que ofereceu aos que esperavam à beira da estrada, do silêncio respeitoso com que escutou os dramas de quem não tinha mais ninguém para ouvir.

E tudo isto sem alarde, sem vaidade, sem esperar reconhecimento. Tio Santos não tem medalhas, não tem títulos, não tem estátuas. Mas tem algo que poucos alcançam: o respeito genuíno de uma comunidade inteira. E isso, por si só, é um milagre.

Por vezes, pergunto-me se ele tem consciência da dimensão do seu impacto. Se sabe que, ao ligar Cuito ao Belo Horizonte, está também a ligar pessoas, sonhos e histórias.

Se percebe que, ao manter-se firme no volante, está a ensinar-nos que a verdadeira grandeza está nos actos simples, repetidos com amor e constância.

Talvez não saiba. Talvez apenas viva. E talvez seja isso que o torna ainda mais especial. Porque, no fim de contas, não são os grandes discursos que mudam o mundo. São os homens como Tio Santos — discretos, persistentes, generosos — que, dia após dia, fazem da vida um lugar mais habitável.

E se algum dia alguém decidir escrever a história dos verdadeiros heróis deste país, que não se esqueça de incluir o nome de Miguel dos Santos, o nosso Tio Santos, o Messias das estradas poeirentas do Bié.

*Comunicólogo

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