
Trabalhadores da Sociedade Mineira de Catoca (SMC) acusam a nova direcção-geral de não ter promovido mudanças estruturais significativas na organização interna da empresa, levantando suspeitas de concentração de poderes, possíveis conflitos de interesses e alegadas irregularidades nos processos de aquisição de bens e serviços.
Segundo o portal Na Mira do Crime, os funcionários afirmam que a entrada de Pedro Inácio Velasco Galiano na liderança executiva da sociedade mineira não terá sido suficiente para alterar uma estrutura de influência que, segundo descrevem, se consolidou durante a gestão anterior, liderada por Benedito Paulo Manuel.
A mudança na direcção ocorreu após a saída de Benedito Paulo Manuel, que renunciou ao cargo durante a 79.ª Assembleia Geral de Sócios, realizada em Abril de 2026.
Na ocasião, o então director-geral justificou a decisão com a necessidade de abraçar novos desafios e salvaguardar os interesses da empresa.
Contudo, os trabalhadores apresentam uma versão crítica da gestão anterior, alegando que Benedito Paulo Manuel terá privilegiado investimentos destinados à projecção externa da imagem de Catoca, em detrimento de algumas necessidades internas dos funcionários.
Entre as situações apontadas estão alegados gastos elevados com prémios internacionais, campanhas de comunicação e contratação de influenciadores e plataformas digitais para promover uma imagem positiva da empresa.
“Enquanto o director se preocupa em projectar uma empresa perfeita, os trabalhadores vivem em condições precárias, com salários estagnados e falta de reconhecimento”, relatou um funcionário com mais de dez anos de serviço.
Os trabalhadores referem igualmente um alegado patrocínio de elevado valor a uma equipa de basquetebol, decisão que terá provocado indignação entre funcionários que reclamam melhores condições laborais e maior reconhecimento profissional.
Outro exemplo apresentado prende-se com a demora de cerca de dois meses na entrega de computadores a alguns trabalhadores, equipamentos considerados essenciais para o desempenho das suas funções.
A denúncia sustenta ainda que a empresa atravessa dificuldades financeiras, que os trabalhadores descrevem como uma situação de falência técnica, com problemas de liquidez que estarão a comprometer o cumprimento atempado de obrigações operacionais.
Conforme o documento, alguns contratos encontram-se suspensos devido à alegada incapacidade de assegurar os compromissos financeiros assumidos.
Nova direcção, antigas estruturas
Com a saída de Benedito Paulo Manuel, Pedro Inácio Velasco Galiano, antigo director-geral da Endiama Mining, assumiu a liderança executiva da Sociedade Mineira de Catoca.
Apesar da mudança, os trabalhadores afirmam que a estrutura de influência interna permanece praticamente inalterada, sobretudo nas áreas consideradas estratégicas, como produção, direcção técnica, aprovisionamento e compras.
Levantando dúvidas sobre possíveis relações familiares, profissionais e empresariais entre responsáveis dessas áreas, bem como sobre a concentração de competências ao longo da cadeia de aquisição de bens e serviços.
Entre os nomes mencionados está Porfírio Horácio Soares, antigo director financeiro e actual director executivo de Aprovisionamento e Logística.
Conforme os denunciantes, a sua experiência no sector bancário nacional e internacional e o conhecimento dos mecanismos de pagamento a fornecedores conferem-lhe uma posição relevante na estrutura de compras da empresa.
Os trabalhadores consideram-no uma das figuras centrais da estrutura que descrevem, embora a denúncia não apresente, por si só, provas documentais de actos irregulares praticados pelo responsável.
Outro nome referido é Filipe César Diogo de Sousa, director executivo-adjunto para a Produção, a quem atribuem participação na identificação das necessidades do sector e na elaboração e libertação das respectivas requisições de compras.
Os trabalhadores afirmam que Filipe César é casado com Ercília Linete Alves Maurício de Sousa, responsável pelo Departamento de Aprovisionamento, e que mantém uma relação de proximidade com Porfírio Horácio Soares.
Para os denunciantes, estas circunstâncias justificam uma análise dos mecanismos internos de prevenção de conflitos de interesses e de separação de funções.
Manuel Domingos Fernandes da Silva, director executivo da Direcção Técnica, é igualmente descrito como um responsável com domínio da área técnica e dos equipamentos, envolvido na identificação das necessidades do sector e na elaboração e libertação de requisições.
Manuel Domingos mantém relações de proximidade com Porfírio Soares e Filipe César, a quem se referem informalmente como “manos”. Afirmam ainda que os três seriam sócios de uma empresa recentemente criada, que fornece materiais à Catoca.
Ercília Linete Alves Maurício de Sousa, responsável pelo Departamento de Aprovisionamento, é também mencionada devido às funções que exerce na área de aquisição de bens e serviços e à relação conjugal com Filipe César Diogo de Sousa.
Carla Idalina Júlio, chefe do sector de Compras, surge igualmente entre os nomes citados pelos trabalhadores como parte da estrutura com influência nos processos de aquisição.
Juliana Carolina Pinto Zage, antiga directora executiva de Aprovisionamento e Logística, ocupa actualmente o cargo de directora executiva do Gabinete do Director-Geral.
Os trabalhadores interpretam a sua transferência como um sinal da continuidade de uma estrutura de confiança ligada à anterior área de aprovisionamento.
No documento, Juliana é descrita informalmente como uma figura de protecção e influência sobre determinados membros da organização, cuja orientação, segundo os denunciantes, seria seguida pelos visados.
A principal preocupação levantada pelos funcionários prende-se com a concentração de competências na cadeia de compras, desde a identificação das necessidades até à tramitação das requisições e ao relacionamento com os fornecedores.
Segundo a denúncia, existem indícios de que determinadas requisições de compras serão divididas em duas, três ou mais partes, alegadamente em função das quantidades de material ou do valor global da aquisição.
Os trabalhadores suspeitam que o procedimento possa servir para evitar que os montantes atinjam os níveis de aprovação dos responsáveis financeiros e da direcção-geral, incluindo o gerente executivo para a área financeira (CFO), o gerente executivo e o director-geral.
A confirmar-se, a prática poderá levantar questões sobre o cumprimento dos procedimentos internos de contratação, os limites de autorização e os mecanismos de controlo financeiro da empresa.
Os denunciantes defendem, por isso, que a situação seja esclarecida através de auditorias internas e externas, da análise dos registos de contratação e da verificação de eventuais relações entre responsáveis da Catoca e empresas fornecedoras.