A escrita e o traço do curso que se retém da voz de um guerrilheiro – O caso de Pepetela – David Capelenguela
A escrita e o traço do curso que se retém da voz de um guerrilheiro – O caso de Pepetela - David Capelenguela
Pepetela

Com a presente proposta de leitura, pretende-se examinar o diálogo proposto por Pepetela para a contextualização da história de Angola através da literatura, sobretudo dos romances que assinalam a perda da utopia, ou seja, do período posterior à Revolução Colonial.

Através de procedimentos específicos, perceber-se-á como este escritor retorna às tradições através do insólito e da oralidade, partes essenciais de seu projeto de “escrita da nação.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos nasceu em Benguela, em 1941. Adoptou, mais tarde, o epíteto da guerrilha: “Pepetela”. Licenciado em Sociologia, torna-se militante do MPLA, em 1963.

Em 1975, com a Independência de Angola, é nomeado Vice-Ministro da Educação no governo de Agostinho Neto. Tem recebido vários prémios, destacando-se o Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte (1993) e o Prémio Camões (1997), pelo conjunto da sua obra, Prémio Nacional de Cultura e Artes (2002), Prémio Internacional da Associação dos Escritores Galegos (2007), grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve, Portugal (2010), prémio do Pen da Galiza Rosália de Castro (2014).

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos (1975) e da Academia Angolana de Letras (2016). Grande parte da sua obra literária foi publicada após a independência de Angola, sendo alvo de inúmeros estudos em várias universidades e instituições de ensino em Angola e noutros países.

As suas obras foram publicadas em Angola, Portugal, Brasil, além de estarem traduzidas em quinze línguas, nomeadamente alemão, inglês, francês, espanhol, italiano, sueco, finlandês, japonês, servo-croata, búlgaro, russo, ucraniano, basco, holandês e grego.

Conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, cursou os estudos primários e secundários em Benguela e no Lubango. Em 1958 mudou-se para Lisboa, onde frequentou o Instituto Superior Técnico e onde iniciou as suas actividades políticas e literárias. Em 1962 saiu de Portugal com destino a Paris, França, onde passou seis meses.

Posteriormente seguiu para a Argélia, onde se formou em Sociologia, vindo a trabalhar na representação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e no Centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

Regressou a Angola e participou directamente da luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo sector da Educação, de 1969 a 1974.

Foi nesse contexto de guerra que ele adoptou o nome Pepetela, que significa, na língua umbundu, “Pestana”, e que passou a utilizar como pseudónimo literário.

Integrou, em 1974, a primeira delegação do MPLA que chegou à capital, Luanda. Desempenhou os cargos de director do Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política.

Além disso, foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982, foi vice-ministro da Educação. Posteriormente, passou a leccionar Sociologia na Universidade Agostinho Neto, tendo publicado inúmeros romances, livros de crónicas e teatro.

O traço de escrita

De uma escrita imensa no sentido comunicacional, cuidada na forma rigorosa, grande na beleza estética, contida, e libertadora numa sempre renovada proposta-activa de fazer do pensamento arma principal contra todas as moléstias sociais, políticas e culturais.

Uma das características mais marcantes da literatura dos países africanos de colonização portuguesa na contemporaneidade é o facto de esta ser uma escrita de ruptura em que a História passa a actuar como novo locus de enunciação.

Assim, se somado a características como a oralidade, o modo como a cultura se expressa no quotidiano e as diversas figurações da natureza, temos um fazer literário que assume uma identidade nacional que assinala a produção das últimas décadas.

Em Pepetela, vemos que seus textos exprimem aquilo que se pode denominar uma “escrita da nação” que se alicerça numa busca às margens, fixadas por uma ideologia nacionalista muito mais ampla e plural.

Guerrilheiro que foi, Pepetela sabe definir os tempos e as circunstâncias. Por isso mesmo, guerrilheiro continua, guerrilheiro, todavia, que usa as palavras para um combate que tem de travar-se nos campos do conhecimento e da reflexão.

A reflexão política e histórica suscitada por sua ficção, como no romance “Mayombe”, também é permeada pela intersecção das lendas e tradições da cultura angolana, o que torna sua literatura uma rica imersão no continente africano.

Entre outros publicou os livros: “As aventuras de Ngunga” (1973), “Muana Puó” (1978), “A Revolta da Casa dos Ídolos” (1979), “Mayombe” (1980), “Yaka” (1985), “O cão e os calús” (1985), “Lueji” (1989), “Luandando” (1990), “A Geração da Utopia” (1992), “O desejo da Kianda” (1995), “Parábola do cágado velho” (1996); “A Gloriosa Família” (1997); “A montanha da água lilás” (2000), “Jaime Bunda, agente secreto” (2001), “Jaime Bunda e a Morte do Americano” (2003) e “Predadores” (2005).

Escritores como Pepetela vêm dinamizar a literatura angolana, ficcionalizando a História de Angola, partindo do local para o universal. A maioria da prosa de Pepetela situa-se no domínio da literariedade, todavia é indiscutível também que esses mesmos textos são a interpretação de acontecimentos históricos em Angola, veja-se o exemplo de “Mayombe”, “Yaka”, “Lueji”e “A Gloriosa Família”.

Não se pode deixar de no tarnessa sobras a transfiguração da realidade e da História. Não se pode ver esses romances como documentos históricos, pois e lês são, antes, a apropriação autoral de uma realidade ideologicamente transmutada. Daí que não se possa/deva fazer a relação directa entre literatura e História.

Não esqueçamos que a literatura trabalha com e no domínio do simbólico. Ora a História deverá trabalhar come sobre a realidade. A literatura recria o sujeito e a sua história, e assim, através do verbum, a estória literária é sempre outra.

Tendo sido Presidente da mesa da Assembleia-Geral da União dos Escritores Angolanos e da Academia Angolana de Letras, em sensivelmente 50anos de escrita, Pepetela publicou quase três dezenas de obras. São vários os motivos condutores dessas obras, para além do recurso à História e/ou à memória.

As temáticas da colonização, discriminação e miscigenação estão patentes, por exemplo, em “Mayombe”; “O Cão e os Caluandas”; “Yaka”; “AGloriosa Família”e “O Quase Fim do Mundo”. O recurso à simbologia é também uma constante e mobras como “Muana Puó”; “Mayombe”; “O Cão e os Caluandas”; “Lueji”; “A Geração da Utopia”; “O Desejo de Kianda”; “A Montanha da Água Lilás”e “O Quase Fim do Mundo”. Um dos símbolos que perpassa várias obras é o da cidade ideal, o da redenção, Calpe, presente em “Muana Puó”; “O Cão e os Caluandas”(aqui como espaço antetextual); “A Parábola do Cágado Velho” e, mais recentemente, no romance “O Quase Fim do Mundo”.

De um discurso, não raras vezes,o da heterogeneidade e das tensões, na sua escrita, a heterogeneidade é notória nas mundividências das personagens e direcções de olhar, nas estratégias de sobrevivência e contestação apresentadas, na oposição entre os interesses sócio-económicos e o modus operandi das personagens e, finalmente, na forma como a sociedade se organiza em Luanda.

Por seu turno, as tensões verificam-se nas relações entre unidade e diversidade; entre ordem e caos; na defesa de um projecto colectivo em tensão com o querer individual; na contraposição entre nação real e nação simbólica; na luta anti-colonial, na defesa do nacionalismo e consequente oposição entre europeização e africanidade.

Por último, a relação temporal entre Passado e Futuro atravessa que se toda a sua escrita. Sobre a História nos seus romances, Pepetela refere que exigiram, como em “A Gloriosa Família”, uma ampla pesquisa, acrescentando que “mesmo que seja para enganar a História, é preciso conhecê-la antes”.

Da leitura e análise destes romances de Pepetela colhem os uma visão realista, não paternalista, da História de Angola, desenhada literariamente. A nova nação angolana é analisada pelos olhos da memória e dos documentos históricos que reinterpretam o passado e apresentam o presente, com os e constata em “Predadores”, por exemplo, em que já não há dúvidas de que se cumprira mas desilusões apontadas em “A Geração da Utopia”.

A escrita da construção da angolanidade é assim literariamente encetada desde as primeiras lutas pelo território, à chegada do colonizador, passando pela luta da guerrilha contra os portugueses, à pós-independência, à guerra civil e novamente ao período de paz que se estende ao presente.

Outro motivo condutor da sua obra é a (des)construção da identidade nacional, que obriga a saltar da utopia à realidade, temática bem presente em “Muana Puó”; “A Geração da Utopia”; “O Desejo de Kianda”e “Predadores”.

As influências do colonialismo na sociedade luandense são evidentes no discurso de Pepetela, na perspectiva angolana de um passado recusável e de um presente que rompa definitivamente com o período da colonização.

A reconciliação com o passado torna-se, pois, (ir)realizável num auspício de um amanhã que tarda em chegar. A sociedade é, muitas vezes, discursivamente perspectivada de forma irónica, onde sobressaem sinais da utopia político-social.

Conclusão

Em jeito de conclusão, diremos então que associando-se ao nascimento de uma consciência nacional cujo cerne era a contestação do colonialismo, os intelectuais angolanos lançaram mão da imprensa para evidenciar a inviabilidade do sistema.

Datam dessa [época] diversos movimentos culturais que deflagraram lutas políticas mais concretas, fazendo com que a expressão “nação angolana” passasse a integrar o vocabulário da época em termos evidentemente dissociados da terminologia colonial (MARGARIDO, 1980, p. 332).

Ciente dessa característica, a chamada geração de 1880 tornou-se a responsável pelo surgimento em Angola de um “movimento de problematização cultural que trazia em seu bojo a aspiração para que se criasse, na então colônia, uma literatura própria” (PADILHA, 1995 p. 59), embora respaldado na mesma perspectiva calibanesca que instaurou novos itinerários da nação a partir da sua heterogeneidade.

Uma dessas evidências surge com a publicação por Cordeiro da Matta, ainda que pela via da poesia, da antologia “Delírios”, que, para além de tematizar a questão racial, contém termos em quimbundu, uma das várias línguas de Angola.

Foi esse facto que contribuiu para o rompimento da hegemonia poética do colonizado na sedimentação do edifício da cultura nacional construída sob a diferença e o logocentrismo que passam, então, a caracterizar o texto literário. Passando, assim, por António Jacinto, Mario Pinto de Andrade, Luandino Vieira, Agostinho Neto e Pepetela, entre outros, a escrita literária assinalou o engajamento de intelectuais a movimentos cujo cerne era, mais uma vez, a idealização de uma nação una, coesa e livre do jugo colonial.

Deste modo, o discurso de Pepetela é também, não raras vezes, o da heterogeneidade e das tensões. A heterogeneidade é notória nas mundividências das personagens e direcções de olhar, nas estratégias de sobrevivência e contestação apresentadas, na oposição entre os interesses sócio-económicos e o modus operandi das personagens e, finalmente, na forma como a sociedade se organiza em Luanda.

Por seu turno, as tensões verificam-se nas relações entre unidade e diversidade; entre ordem e caos; na defesa de um projecto colectivo em tensão com o querer individual; na contraposição entre nação real e nação simbólica; na luta anti-colonial, na defesa do nacionalismo e consequente oposição entre europeização e africanidade.

Por último, a relação temporal entre Passado e Futuro atravessa quase toda a sua escrita.

Finalmente, outro motivo condutor da sua obra é a (des)construção da identidade nacional, que obriga a saltar da utopia à realidade, temática bem presente em “Muana Puó”; “A Geração da Utopia”; “O Desejo de Kianda”e “Predadores”.

As influências do colonialismo na sociedade luandense são evidentes no discurso de Pepetela, na perspectiva angolana de um passado recusável e de um presente que rompa definitivamente com o período da colonização. A reconciliação com o passado torna-se, pois, (ir)realizável num auspício de um amanhã que tarda em chegar.

A sociedade é, muitas vezes, discursivamente perspectivada de forma irónica, onde sobressaem sinais da utopia político-social, não se limitando à caracterização de uma realidade passada, antes projecta no presente essa realidade: as questões ligadas com a miscigenação, igualdade de direitos e identidade nacional, por exemplo, estarão hoje ultrapassadas?

Estes romances representam o processo de formação política e sócio-cultural angolana, levantando reflexões que se coadunam com a Angola contemporânea. A percepção histórica que se obtém é, pois, um somatório do passado com o presente.

O futuro, com a concretização dos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade e justiça, evidencia claramente a dificuldade na concretização dos ideais defendidos pelos heróis. Durante séculos, a conjuntura política altera-se, teoricamente, mas na prática os problemas mantêm-se.

*Escritor e ensaísta

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