
Por mais incrível que possa parecer, o que hoje se observa no seio do MPLA, numa clara guerra interna em torno da tentativa de impedir a formalização da candidatura de Higino Carneiro, não se limita a uma simples disputa partidária.
O que está em causa obriga a considerar possíveis armadilhas políticas que podem estar a ser montadas contra o próprio Presidente da República, João Lourenço, num contexto em que a paciência estratégica, em política, raramente é neutra ou inocente.
A leitura destes sinais ganha maior peso quando se assume a possibilidade de uma recondução de João Lourenço, como candidato único, à liderança do partido no IX Congresso Ordinário, em Dezembro, situação em que a única vantagem prática será não poder fugir ao cenário que o próprio sistema ajudou a construir.
Se tal recondução se confirmar, a lógica que se impõe nos corredores do poder sugere um desfecho pouco confortável, marcado pela ideia de que o MPLA não vencerá as próximas eleições, mesmo com os mecanismos de gestão eleitoral que historicamente lhe são associados.
Nesse enquadramento, o presidente do partido deixaria de ter qualquer distância de segurança política, permanecendo obrigatoriamente no país perante o eventual colapso do edifício político que sustentou.
A actual disputa interna, frequentemente apresentada como disciplina organizativa, revela assim um subtexto mais profundo, no qual o combate à candidatura de Higino Carneiro expõe a fragilidade de uma democracia interna que parece funcionar apenas enquanto não é testada.
A exclusão ou bloqueio de uma candidatura interna transforma-se, neste contexto, numa demonstração de que a competição real continua a ser um elemento profundamente desconfortável dentro da estrutura do MPLA.
O que se apresenta como mera gestão interna acaba por revelar um método de funcionamento político que ultrapassa as fronteiras do partido e projecta sobre o sistema eleitoral nacional uma imagem crescente de impopularidade, desconfiança e descrédito.
As denúncias de bloqueios administrativos na regularização de quotas, em várias províncias e municípios, reforçam ainda mais esta percepção, sobretudo quando militantes se deparam com recusas de processamento, ausência de autorização superior ou simples inexistência de recibos, criando um modelo em que a participação política depende menos da vontade dos militantes e mais da conveniência da arbitragem interna, iniciada precisamente por um árbitro que decidiu transformar-se em jogador e, até ao momento, no único jogador autorizado a permanecer em campo.
As próprias reacções de dirigentes e militantes, incluindo a ironia expressa por Higino Carneiro ao questionar a aparente “desnecessidade” de cotizações num partido que controla o Estado há mais de meio século, acrescentam densidade a esta contradição estrutural. A gestão interna torna-se, assim, um espelho de práticas mais amplas, onde a fronteira entre organização partidária e lógica de poder se torna cada vez mais difusa.
Neste quadro, emerge a hipótese de uma armadilha política progressiva, na qual a condução do processo interno pode acabar por expor João Lourenço a responsabilidades políticas futuras de enorme dimensão, sobretudo num cenário de transição governativa em 2027, com o MPLA fora do poder e com João Lourenço obrigado a permanecer no país por ser presidente do partido, circunstância que o colocaria diante das consequências políticas, institucionais e jurídicas acumuladas ao longo do próprio modelo de governação que ajudou a consolidar.
Nesse contexto, poderão regressar à Assembleia Nacional dossiês anteriormente bloqueados, relacionados com processos de destituição do Presidente da República, seguidos da eventual retirada de imunidades constitucionais do ex-Chefe de Estado para responder em tribunal por alegados crimes contra o Estado democrático e de direito, a segurança do Estado e o regular funcionamento das instituições.
A isto soma-se a acumulação de pressões institucionais associadas a denúncias envolvendo o SINSE e o seu responsável máximo, Fernando Garcia Miala.
O resultado final desta dinâmica não dependerá apenas da actual disputa interna, mas da forma como cada decisão tomada no presente poderá transformar-se em consequência política futura, num sistema em que o controlo aparente tende, muitas vezes, a gerar vulnerabilidades reais.
*Jornalista e director do portal “A Denúncia”