
Num retrato abrangente e crítico da política angolana, o escritor e jornalista Sousa Jamba, com fortes ligações históricas e familiares à UNITA, analisa a evolução do sistema partidário em Angola. Destaca a transformação da UNITA sob a liderança de Adalberto Costa Júnior, que considera mais urbana, plural e eleitoralmente competitiva, alertando, contudo, para as dinâmicas naturais de disputa entre a UNITA e o PRA-JA na luta pelo eleitorado. Em simultâneo, aponta sinais de possíveis tensões e clivagens internas no MPLA e aborda os limites e avanços da governação de João Lourenço no combate à corrupção e na promoção da transparência.
O Sousa Jamba tem acompanhado os recentes acontecimentos políticos no país. Como interpreta a actual tensão entre Adriano Sapiñala, da UNITA, e Abel Chivukuvuku, do PRA-JA?
A minha opinião é que isto deve ir a tribunal para haver responsabilidade quando emitimos opiniões, e também para passarmos a saber se a nossa justiça é, de facto, como a lei diz e se as leis são respeitadas. Seria muito bom que isso passasse por um processo em tribunal, também para termos uma ideia do que verdadeiramente aconteceu. Será que é uma montagem de inteligência artificial? Ou será mesmo corrupção? Porque, se tratamos isto como corrupção, então significa que alguém subornou alguém para determinados fins. Em tribunal, tudo isso terá de ser esclarecido, e seria bom para o nosso país.
Há quem entenda que tanto a UNITA como o PRA-JA hoje perdem muito tempo em quezílias entre si, quando deviam preocupar-se mais com a fiscalização dos actos do Governo. Qual é a sua opinião diante desta visão?
Isto é verdade. Mas, até certo ponto, isso é política. E a política é a conquista do espaço do eleitorado. Naturalmente, a UNITA quer manter o seu eleitorado, e o PRA-JA quer conquistar parte do eleitorado da UNITA e do MPLA. Então, o PRA-JA tem essas duas frentes. É natural, é mesmo de esperar, que este seja o caso.
Que observação tem a fazer à UNITA liderada por Adalberto Costa Júnior no actual contexto?
Tem sido uma UNITA que se expandiu. A UNITA de hoje já não é a UNITA que conheci. O que aconteceu foi que a UNITA se expandiu consideravelmente e ganhou espaço nos territórios urbanos. Antigamente, a UNITA era um partido rural; passou a ser um partido urbano. Passou também a ser um partido no qual muita gente, sobretudo a juventude, se revê. Então, o Adalberto Costa Júnior tem feito um bom trabalho político e a UNITA tem avançado.
Antes de chegar à liderança do partido, esperava que Adalberto Costa Júnior fizesse a revolução mencionada por si?
Há 30 anos, ou mais de 30 anos, em Lisboa, José Eduardo Agualusa fez-me a pergunta sobre se a UNITA um dia poderia ter um presidente não negro. Na altura, ele citou o dr. [Carlos] Morgado e o Adalberto Costa Júnior, e eu disse que sim, e ele achou estranho. Foi uma entrevista que o Eduardo Agualusa, que na altura trabalhava para o Público, me fez. Eu disse que sim porque, bem, conhecendo a dinâmica da UNITA… quer dizer… nós rotulamos ou temos a percepção de uma organização de uma certa forma, mas há uma realidade por dentro. Então, essa ideia de um movimento completamente dominado pelo espírito da negritude, que uns traduziam como sendo a exclusão dos mestiços e dos brancos, na realidade não era exactamente assim. A militância e a credibilidade dentro do partido contavam mais do que a raça, ou mesmo do que a classe social e a proveniência social. E foi isso que aconteceu com o Adalberto Costa Júnior. O pessoal analisou e viu que, neste contexto, o indivíduo com capacidade intelectual, com capital em termos de ressonância nas áreas urbanas e também com credibilidade internacional era o Adalberto Costa Júnior, e ele foi escolhido por isso.
Há quem entenda, por exemplo, que, do ponto de vista da alegada ala de Isaías Samakuva, enquanto presidente cessante do partido na altura, Alcides Sakala seria o presidente da continuidade. Não é essa a interpretação que faz?
Sim, sim… há várias alas, não é? Cada ala fica convencida de que é a melhor, cada ala fica convencida de que é ela que tem a verdade, mas depois há a realidade, e essa realidade tem a ver com aquilo que o eleitorado quer. E vimos, nas últimas eleições, que o empenho de Adalberto Costa Júnior foi muito positivo.
Acredita que a UNITA de hoje está preparada para ter um presidente não ovimbundu?
Sim, absolutamente! Ser presidente da UNITA hoje não é a mesma coisa que ser presidente da UNITA em 1966 ou em 1976. A UNITA foi formada em 1966 e, depois, em 1974, veio para as cidades. E, quando veio para as cidades, a UNITA foi quase esmagada. Ali era necessário um líder que pudesse inspirar esses laços familiares, porque, [senão], era a morte. Quais eram as famílias que iriam mandar os filhos para a frente? Então, ali os laços familiares foram muito importantes. As pessoas terem um passado comum foi muito importante para se criar uma certa coesão para a sobrevivência, e até alianças com as quais a UNITA historicamente não se sente confortável, olhando para trás, tiveram de ser feitas. Mas, uma vez que a UNITA sobreviveu, então tudo se torna diferente. Qual é o objectivo positivo? O objectivo é atingir o poder. E, com esse novo objectivo, vai-se atrás de quem melhor pode ajudar a atingir esse objectivo. Agora, se for bakongo, ovimbundu, ngangela, luchazi, ou seja quem for, as pessoas vão ser pragmáticas.
Como viu a candidatura de Rafael Savimbi contra Adalberto Costa Júnior no último congresso da UNITA, tendo em conta o protagonismo de ACJ?
E é isto que faz da UNITA um partido singular, porque, em muitos partidos africanos, o filho do presidente fundador ganha; até nem é preciso fazer eleições. Vimos, por exemplo, no Uganda, que foi a esposa de Milton Obote que passou a ser presidente do partido de Milton Obote. Na Zâmbia, vimos que foi o filho de [Kenneth] Kaunda que passou a ser o presidente do partido de Kaunda. Mas a UNITA rejeitou isso, e isso só demonstra a sofisticação da máquina que existe. Mas isto é resultado do trabalho do dr. Jonas Malheiro Savimbi. O dr. Savimbi teve muitas falhas…
Como quais, por exemplo?
A tendência para ser autoritário. O culto da personalidade e depois não saber exactamente distinguir a dimensão militar da dimensão política e, no fim, criar querelas com indivíduos muito próximos dele, e um certo maquiavelismo em que manipulava os quadros para se manter no centro do poder. Mas também tinha muitas qualidades. Era um intelectual que dava muita importância à estratégia, dava muita importância à formação. Em 1976, mandou muitos jovens para as melhores academias militares do mundo, porque tinha de criar um exército profissional. Os serviços de inteligência dele, indivíduos como o falecido Tito Chingunji, Jardo Muekalia e outros, foram formados pelo MI6 [Secret Intelligence Service do Reino Unido], pela CIA [Central Intelligence Agency dos EUA], pelos melhores. Eu cresci na Zâmbia, mas, dos 17 aos 18 anos, passei pela Jamba. Lembro-me de que havia lá uma biblioteca e eu via os livros. Ele era um indivíduo que lia bastante e aproximava as coisas de uma forma bastante analítica. Só que, de vez em quando, perdia-se nas suas emoções, nos seus demónios.
Acredita que Rafael Savimbi tem capital político para liderar a UNITA no futuro, depois da era Adalberto Costa Júnior?
É difícil dizer, porque muita coisa pode acontecer. Imaginemos um cenário em que Adalberto Costa Júnior ganhe as eleições gerais de 2027. Então, no futuro, vai colocar-se a questão do Presidente da República Adalberto Costa Júnior. Vai depender muito dos cenários que surgirem, e também podem aparecer outras personalidades. É preciso saber que o Rafael, até certo ponto, está a ir a reboque da reputação do pai dele. Em umbundu há um provérbio que diz: na ausência do soba, o vice não é como o soba. Pode haver essa noção de que ele é filho de Savimbi e de que muita gente, movida pela nostalgia e coisas do género, vá atrás dele, mas nós temos, cada vez mais, um eleitorado muito jovem, e esse eleitorado toma decisões com base nos seus interesses. As novas tecnologias facilitam isso. Esses jovens identificam o que querem: trabalho, uma vida razoável, transparência na gestão dos recursos nacionais, dignidade, integridade, etc. E quem é a pessoa melhor posicionada para trazer isso? Essa vai ser a questão. Esse novo eleitorado não estará movido pela nostalgia. Muitos deles nasceram depois de 2000, 2002, 2003, e já nem se lembram da guerra. Mas o que é que eles querem? Querem emprego, querem uma vida digna, querem saúde acessível. E a questão será: quem poderá providenciar isso?
O MPLA prepara-se para realizar o seu IX Congresso Ordinário. Que leitura faz do ambiente político em torno deste conclave?
Estou bastante apreensivo porque, embora tenha crescido fora de Angola, leio muito a nossa história, e o MPLA teve várias facções desde o Congo, depois na Zâmbia. Tivemos a Revolta Activa, a Revolta do Leste e, eventualmente, em 1977, o nitismo, o Nito Alves. E mesmo depois da ascensão do presidente João Lourenço, vimos a tensão que surgiu entre o campo do presidente José Eduardo dos Santos e a sua rede de patrocínio e o novo regime. Então, a noção de que o MPLA tem sido altamente coeso é apenas alimentada pelo facto de ter o poder e de, ao longo da história, a facção que controlou os instrumentos da repressão ter vencido e controlado a narrativa. Mas agora o que estamos a ver é uma possibilidade de implosão interna no MPLA, com facções, com pessoas a apoiarem a nova geração e a antiga geração. Isso é positivo, porque eu acredito na dialéctica; é através desse confronto que pode surgir uma nova realidade, isto se for bem controlado e se não resultar em fraccionismo, porque o MPLA é o partido que tem poder e responsabilidade. Um MPLA no poder enfraquecido também afecta o nosso país.
Os investidores estão permanentemente a observar o que se passa dentro do MPLA. Se virem sinais bastante inquietantes, vão hesitar. Espero que no MPLA haja verdadeiros democratas para que estas cisões não resultem em fracturas marcantes. [Devem] fazer como tem acontecido na UNITA.
Higino Carneiro afirma estar a ser alvo de uma “mão invisível” para impedir a sua candidatura à liderança do MPLA. Acredita nessa tese?
Sempre haverá mãos invisíveis; isto é um jogo, o que significa que vão existir várias táticas por baixo. Ele tem de desenvolver uma estratégia, uma tática para sobreviver. A democracia é assim. Vai haver sempre alguém que vai criar condições para que X ou Y não consiga aquilo que quer. É normal.
João Lourenço, quando chegou ao poder, prometeu combater a corrupção, o nepotismo e a impunidade. Na prática, que resultados concretos vê nesses domínios? Alcançou os objectivos?
Não alcançou, mas foi muito positivo o que ele fez, porque não caiu naquela narrativa, naquela atitude de avestruz, de meter a cabeça na areia. Começamos a ver exactamente o que nós, na altura, estávamos a falar, nós que vínhamos da oposição, que havia uma rede que controlava a economia, por exemplo, e que essa rede estava a ter um impacto negativo no país. Ele trouxe isso.
Lembro-me exactamente que, em 2017, ouvi um discurso do Presidente João Lourenço no Bié, no Kuito, e eu estava mesmo na nossa aldeia, no meu carro, e aquilo foi em directo. Gostei tanto do discurso que escrevi algo, e lembro-me que o meu irmão, o falecido Jaka Jamba, depois ligou para mim e disse: nós somos da UNITA, não podemos louvar o João Lourenço. Mas eu disse: olha, eu sou independente, sou da UNITA por razões sociológicas, históricas, mas se ouvi algo muito positivo deste candidato, e temos que realçar, é isto que queremos. Não vamos agora seguir cegamente os candidatos por causa dos nossos interesses históricos ou do nosso passado histórico, mas sim pelo futuro, o que é que ele apresenta.
Estes cinco anos, a questão do nepotismo, da corrupção e da falta de transparência na gestão dos recursos de todos nós, recursos públicos, está na mesa, não obstante o facto de poder existir falha aqui e acolá. O que existe é que estão na mesa e na agenda, e devemos agradecer ao Presidente João Lourenço. Com isso eu digo: olha, eu já sei que as pessoas vão me acusar de ser bajulador, não me importo. Não quero ser ministro, não quero ser ninguém, mas há coisas positivas na UNITA e há coisas positivas no MPLA.
Indique coisas positivas e negativas do MPLA e da UNITA?
Esta que indiquei. Mas uma outra coisa que temos todos que aceitar: o processo da reconciliação nacional em Angola é uma coisa admirável.
Mas há quem não concorde?
Porque não viajaram, não foram a outros países onde houve conflitos. Não foram por situações… mesmo na Nigéria, onde tiveram a guerra de Biafra de 1967, que acabou lá para os anos 1970… porque o governo federal ganhou/venceu os separatistas do Biafra, maioritariamente da etnia Igbo. Os Igbo foram oprimidos. E é por isso que temos essa maka na África do Sul. São maioritariamente os Igbo que sentem que não têm lugar no seu país, Igbo que também não se identificam com o país em si.
Em Angola, temos que dizer que, quando se disse que não há mais tiros e vimos o general [Abreu Muengo Ukwachitembo] “Kamorteiro”, no Luena, e o general [Armando da Cruz Neto], aquilo marcou uma reconciliação profunda que se vê no interior. Tenho viajado no interior. Há vezes que estou a conduzir em Angola às duas ou 3 da manhã, entre, por exemplo, Kuito e Huambo, e digo: uau! Antigamente isto não era possível. Houve, genuinamente, uma reconciliação. Agora, sempre haverá pessoas que vão dizer, vão apontar para isto ou aquilo. É intolerância, que exista. Mas, em geral, o processo de reconciliação em Angola foi muito positivo.
Até o Zimbabwe. Se virmos a ZANU-PF [União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica] e as ZAPU [União Popular Africana do Zimbábue], as feridas, o que aconteceu depois de [Robert] Mugabe ter enviado a Quinta Brigada para Matabeleland, as fissuras estão lá até hoje, mas nós aqui estamos. Lutamos. Quer dizer, temos os nossos problemas, mas em termos do continente africano, o que foi feito é impressionante.
Em parte, temos que felicitar o MPLA e também a UNITA, porque a UNITA poderia ter continuado. O general Apolo [Pedro Felino Yakuvela] estava lá no Norte, poderia ter continuado, poderíamos ter focos. Mas o general Gato [Paulo Lukamba], na altura secretário-geral da UNITA, disse que não, vamos ter uma reconciliação nacional. E temos que felicitar todos esses que fizeram com que a paz no nosso país fosse uma realidade.
Como avalia o Estado da imprensa angolana no actual quadro?
Estou a gostar muito, porque a imprensa angolana está a ter uma evolução que se assemelha com o que está a acontecer no Ocidente. No Ocidente, o que está a surgir são podcasts. Aliás, há dias uma antiga directora da BBC disse que: “olha, temos que ter cuidado, estamos a perder o público para os podcasts”. E há figuras, por exemplo, que têm milhões de seguidores no YouTube. Porquê? Porque essas figuras têm uma certa credibilidade com um certo público. Não obstante o que é dito por todo o lado, estamos a ver o surgimento de plataformas, de plateias digitais em Angola, com várias sensibilidades, vozes que talvez não tenham a possibilidade de aparecer no mainstream, aparecem por lá. E, embora haja certas dificuldades, em geral estamos num caminho muito positivo.
Considera que hoje existe uma verdadeira liberdade de imprensa em Angola?
Isso é um pouco difícil eu avaliar e dizer, porque eu não vivo cá. E os meus colegas jornalistas daqui têm dito que as coisas não são assim tão boas. Mas também eu acho que não são assim tão más. Há ali a Luísa Rogério, a nossa presidente da Comissão de Carteira e Ética (CCE) de Angola, e vários outros têm lutado para que haja mais liberdade, porque é a única forma de podermos ter um desenvolvimento. Tem que haver um verdadeiro debate e a existência de várias ideias.
Outro dia eu fui ao estúdio do que será a futura estação de rádio da agricultura, do Ernesto Bartolomeu, e é algo impressionante. A agricultura é o nosso futuro. Termos uma estação, por exemplo, dedicada somente à agricultura demonstra o desenvolvimento, que é bastante positivo.
Os partidos da oposição acusam frequentemente os órgãos públicos de comunicação social de favorecerem o MPLA. Entretanto, também há críticas à linha editorial da Rádio Despertar, ligada à UNITA. Na sua opinião, se a UNITA chegar ao poder, poderá transformar a Rádio Nacional de Angola numa versão da Rádio Despertar?
Claramente que o fará. Se a empresa estatal defende a linha do partido no poder e a rádio da UNITA defende a linha da UNITA, aqui há um mercado, há um público que vai querer ouvir algo mais equilibrado. E é uma grande oportunidade para a imprensa independente, para surgir, para ir lá e ir com credibilidade, com objectividade, para se poder criar aquilo. Mas esperar que a imprensa estatal modifique uma cultura de 50 anos não é nada fácil, e vice-versa. Mas a imprensa independente e privada é que pode fazer esse papel.
Como escritor e jornalista, sente que hoje existe mais abertura para o pensamento crítico em Angola do que no passado?
Sim, agora sim. Não só crítico, mas com várias vozes. Angola é um país de jovens, com uma elite nas áreas urbanas muito voltada ao mundo. Então, temos várias ideias e várias sensibilidades, o que no passado não era possível. E também temos as novas tecnologias, que facilitam esse pluralismo de ideias.
Então, pode haver alguém que queira uma certa coerência, uma linha, mas esse instinto, esse campo, não pode vingar porque há pluralidade no terreno, o que realça a importância do pluralismo.
O Presidente João Lourenço apresentou a sua candidatura à liderança do MPLA, caso o MPLA vença as eleições gerais de 2027, não estaremos aqui perante o cenário de bicefalia e provavelmente voltar a acontecer o que aconteceu com José Eduardo dos Santos em 2018, quando foi forçado a abandonar o partido?
Depende de quem ele escolher e também da situação, sobretudo da situação económica, e também de quem será o presidente do MPLA e o cabeça de lista no poder. Depende também do processo eleitoral. Como é que ele ganha? Será que a presidência será contestada? Será que haverá alegações de fraude ou será que ele mesmo, genuinamente, terá ganho com lisura, o que lhe dará muita legitimidade? E se isto acontecer, então essa figura vai dizer: “eu aqui sou o chefe absoluto”.
Mas, em 2017, também houve contestação da vitória do MPLA. Ainda assim, o Presidente Lourenço, no início do seu mandato, teve uma avalanche da sociedade a apoiá-lo. Se num cenário hipotético voltar a acontecer o que ocorreu em 2017… até porque as acusações de fraude também ocorreram naquele período…
Ocorreram, mas também havia um sentimento de que estávamos a começar uma nova fase. José Eduardo dos Santos era uma figura do passado. Nem muita gente notou que ele deixou de ser presidente do partido MPLA, porque praticamente no momento em que ele deixou de ser Presidente da República, deixou também de ter aquele peso. O Presidente da República é que manda, é quem decide. É que comanda as Forças Armadas, a Polícia e todas essas instituições. E é muito difícil essa tal bicefalia. Não é o presidente do partido que vai mandar no Exército, não é o presidente do partido que vai mandar nos serviços de inteligência; é o Presidente da República.
E ali a questão da legitimidade dele, da forma como ele ganhar, vai contar muito, sobretudo porque vai ser uma figura incógnita, até agora, pelo menos uma figura não muito conhecida.
Em poucas palavras, como define a governação de João Lourenço?
Tentou e conseguiu algo.
Tentou e conseguiu o quê, objectivamente?
Algo que ele tinha prometido. Houve coisas na campanha que vieram com a febre da campanha. Por exemplo, transformar Benguela numa Califórnia, aquilo foi uma hipérbole, aquilo ficou. Mas ali, por exemplo, a reconciliação nacional, as exéquias… enterrar o dr. Jonas Malheiro Savimbi na sua aldeia, no Lopitanga. Mesmo esse processo de abrir o 27 de Maio, e, com honestidade, a CIVICOP [Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos] é uma grande iniciativa. É preciso muita coragem. É algo muito positivo.
Olhando para o Comité Permanente da Comissão Política da UNITA, que é o órgão de direcção do partido, na sua opinião, quem virá a substituir Adalberto Costa Júnior na liderança do partido?
Não sei.
Quem é o seu favorito?
Neste momento não tenho… Eu vi a ascensão da Navita Ngolo. Vi pela primeira vez a Navita quando era estudante a ouvir os mais velhos e a discutir política e depois foi representante da UNITA no Huambo. Vi a Navita nas aldeias e ao mesmo tempo estava a fazer um mestrado em finanças numa universidade portuguesa, online. A dedicação à política é uma coisa que me impressiona.
Mas também temos o Kuvalela, o Liberty, temos o próprio Nelito, que fez um grande trabalho nas últimas eleições, em Luanda. Não podemos negar o facto de que ele foi uma chave na transformação da sorte eleitoral da UNITA na capital.
in Polígrafo África