Mfulumpinga Nlandu Victor foi assassinado há 22 anos
Mfulumpinga Nlandu Victor foi assassinado há 22 anos
Mfulup

Assinala-se hoje mais um aniversário da morte de Mfulumpinga Nlandu Victor, professor catedrático, matemático, deputado à Assembleia Nacional e fundador do Partido Democrático para o Progresso – Aliança Nacional Angolana (PDP-ANA), assassinado em Luanda a 2 de Julho de 2004, aos 60 anos.

Passadas mais de duas décadas, o seu homicídio continua envolto em dúvidas e permanece um dos crimes políticos mais marcantes da história recente de Angola.

Nascido a 15 de Dezembro de 1944, no município de Maquela do Zombo, província do Uíge, Mfulumpinga viveu parte da juventude no exílio, no então Congo Leopoldville (actual República Democrática do Congo), para onde se refugiou devido à repressão colonial portuguesa.

Durante esse período, destacou-se como dirigente estudantil, tendo sido eleito presidente dos estudantes universitários angolanos na RDC.

Organizou e dirigiu o Primeiro Congresso dos Estudantes Angolanos no Exílio, realizado em Kinshasa, que reuniu cerca de 500 estudantes provenientes de vários continentes, num momento considerado histórico para a organização da juventude angolana no exterior.

Após a independência nacional, em 1975, regressou a Angola, integrando o Conselho Directivo Provisório da Ordem dos Engenheiros e dedicando-se à carreira académica.

Na Universidade Agostinho Neto (UAN) tornou-se uma das mais respeitadas figuras da área da Matemática. Foi professor titular, leccionando a disciplina de Matemática, além de exercer os cargos de chefe do Departamento de Matemática da Faculdade de Economia e chefe do Departamento de Matemática e Engenharia Geográfica da Faculdade de Ciências.

No início da abertura política, criou um grupo de reflexão que culminaria, a 17 de Março de 1991, na fundação do PDP-ANA, partido que presidiu até à sua morte.

Sob a sua liderança, o PDP-ANA afirmou-se como uma força política de oposição, defendendo reformas democráticas, o Estado de Direito e a realização de eleições livres.

Nas primeiras eleições multipartidárias, em 1992, foi eleito deputado à Assembleia Nacional, mandato que exerceu sucessivamente até 2004. No Parlamento integrou a 6.ª Comissão e passou igualmente a fazer parte do Conselho da República, órgão de consulta do Presidente da República.

Depois do fim da guerra civil, em 2002, e da morte de Jonas Savimbi, em combate, o PDP-ANA ganhou maior protagonismo na oposição civil, numa altura em que a UNITA atravessava um processo de reorganização política.

Mfulumpinga assumiu então uma postura particularmente crítica em relação ao Governo de José Eduardo dos Santos, tornando-se uma das vozes mais activas na defesa da alternância política e da convocação de eleições gerais.

No dia da ocorrência, isto é a 2 de Julho de 2004, Mfulumpinga participou numa reunião do Conselho da República, onde, segundo diversos relatos divulgados na época, terá defendido de forma firme a necessidade de acelerar o processo eleitoral.

Depois da reunião, manteve contacto telefónico com o secretário-geral do PDP-ANA, Sediangani Mbimbi, com quem havia combinado um encontro. Antes de seguir para o local, deslocou-se à sede nacional do partido, no bairro do Cassenda, município da Maianga, em Luanda.

Quando abandonava o edifício em direcção à sua viatura, foi surpreendido por um grupo de homens armados – suspeita-se que sejam oficiais do SINFO, antigo serviços de informação – que abriram fogo com uma arma. A única bala que lhe atingiu era incendiaria.

Gravemente ferido, foi transportado para a Clínica da Endiama, na Ilha de Luanda, onde acabou por morrer pouco tempo depois.

Os atacantes fugiram do local levando a viatura do deputado, e que, curiosamente, o abandonaram há escassos metros. Mfulumpinga Nlandu Victor morreu aos 60 anos, deixando viúva e cinco filhos.

Um crime que continua sem respostas

Desde o dia do atentado, o homicídio do presidente do PDP-ANA continua rodeado de controvérsia. Ao longo dos anos, dirigentes do partido, antigos companheiros e diversos sectores da oposição sustentaram que o assassinato teve motivações políticas, apontando suspeitas de envolvimento de estruturas do Estado.

As autoridades angolanas nunca confirmaram essas alegações e o processo judicial nunca produziu um esclarecimento definitivo sobre a autoria moral e material do crime.

Passados 22 anos, continuam por responder questões fundamentais sobre quem ordenou, planeou e executou o assassinato de uma das figuras mais destacadas da oposição angolana no período pós-guerra.

Para muitos sectores políticos e da sociedade civil, Mfulumpinga Nlandu Victor permanece como um símbolo da luta pelo pluralismo político, pela democracia e pelo Estado de Direito em Angola, sendo recordado como um académico, dirigente partidário e parlamentar que marcou uma geração da política angolana.

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