
O major das Forças Armadas Angolanas (FAA), Carlos Manuel Afonso, afirma ter sido alvo de uma tentativa de homicídio semanas depois de ter denunciado o procurador-geral da Justiça Militar e vice-procurador-geral da República, general Filomeno Octávio da Conceição Benedito, por alegadamente liderar uma organização criminosa envolvida em abuso de poder, tráfico de influência e obstrução da justiça.
Segundo informações remetidas ao Imparcial Press, o atentado ocorreu na noite de 4 de Julho, por volta das 20h00, quando o oficial regressava da residência de familiares e circulava pela nova via que liga a Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem Loy ao Bairro Popular, na zona do Palanca, em Luanda.
Ao aperceber-se de que estava a ser seguido por dois indivíduos numa motorizada, o oficial decidiu alterar o percurso e abandonar a viatura, escondendo-se num local seguro.
Instantes depois, os dois homens aproximaram-se do automóvel e efectuaram vários disparos contra o veículo, colocando-se em fuga sem se aperceberem de que o alegado alvo já não se encontrava no interior.
Após o ataque, Carlos Manuel Afonso contactou familiares, que se deslocaram ao local para lhe prestar assistência e garantir a sua segurança.
O oficial sustenta que o episódio está relacionado com as denúncias que apresentou contra altas figuras da Justiça Militar, acrescentando que, apesar da gravidade das acusações, o processo continua sem evolução.
Além da alegada tentativa de homicídio, afirma que as suas contas bancárias permanecem bloqueadas e que o telemóvel continua apreendido, sem que, até ao momento, tenha sido dada qualquer resposta às exposições dirigidas às autoridades competentes.
O major denuncia igualmente ter recebido chamadas telefónicas de pessoas que se identificaram como ligadas ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), convocando-o para comparecer nas instalações daquele órgão sem qualquer notificação formal.
Um dos contactos foi efectuado através do número 928 006 641, por um indivíduo que se identificou como Cláudio de Azevedo, alegadamente afecto ao gabinete do procurador Dionísio junto do SIC-Geral. Outro telefonema partiu do número 923 538 574, cujo interlocutor se apresentou como Preta Correia, também afirmando trabalhar junto do SIC.
Segundo o denunciante, ambos insistiram para que comparecesse no SIC-Geral no dia 14 de Julho, apesar da inexistência de qualquer convocatória escrita.
Em Maio deste ano, o Imparcial Press noticiou que Carlos Manuel Afonso endereço uma exposição à Presidência da República, datada de 21 de Abril de 2026, na qual acusa o general Filomeno Benedito de chefiar uma alegada organização criminosa integrada por magistrados, advogados e oficiais superiores.
Na participação, o oficial militar afirma que o grupo actuaria de forma coordenada para controlar um terreno associado a um projecto de investimento da fabricante automóvel indiana Tata Motors, aprovado por estruturas empresariais da multinacional em Singapura e Nova Deli.
Entre os visados constam ainda o advogado Alcatir José Marcos da Costa, apontado como familiar da vice-Presidente da República, Esperança da Costa, e Januário Eliseu Nguiniti, bem como o major Hamilton de Azevedo e o magistrado Cláudio de Azevedo.
O documento refere que, desde Julho de 2025, as contas bancárias do denunciante terão sido bloqueadas sem decisão judicial, alegadamente como forma de pressão para que desistisse dos seus direitos sobre o imóvel em litígio.
O major sustenta ainda que representantes da alegada rede terão intimidado responsáveis da Panafrique Motors, representante da Tata Motors em Angola, com o objectivo de inviabilizar qualquer parceria comercial consigo. Acrescenta que um dos envolvidos terá oferecido 250 milhões de kwanzas ao superficiário do terreno para romper os acordos anteriormente celebrados.
Na exposição, Carlos Manuel Afonso solicita a abertura de um processo criminal contra os denunciados e a aplicação de medidas de coacção, incluindo prisão preventiva, alegando existir risco de destruição de provas, influência sobre testemunhas e obstrução das investigações, em virtude das funções exercidas pelos visados no sistema judicial e militar.
Até ao momento, não é conhecida qualquer posição pública do procurador-geral da Justiça Militar ou da Procuradoria-Geral da República relativamente às acusações formuladas pelo oficial das FAA.