
Quando o Executivo angolano, liderado pelo Presidente da República, João Lourenço, assumiu o combate à corrupção como uma das principais bandeiras da governação, muitos cidadãos acreditaram que o país estava perante uma nova era de responsabilização, transparência e moralização da administração pública.
Os primeiros anos foram marcados por investigações, detenções, julgamentos e recuperação de alguns ativos, alimentando a esperança de que ninguém estaria acima da lei.
Contudo, passados vários anos, a perceção de muitos angolanos é de que o fenómeno continua profundamente enraizado nas instituições públicas. Embora tenham ocorrido condenações e processos mediáticos, também se registaram libertações, arquivamentos de casos e um sentimento crescente de impunidade, levando parte da sociedade a questionar se o combate à corrupção mantém a mesma firmeza e consistência dos seus primeiros momentos.
Mais preocupante ainda é a aparente banalização da corrupção. Em determinados setores, o desvio de recursos públicos, o tráfico de influências e o abuso de poder parecem ser encarados por alguns responsáveis como práticas normais do exercício de funções.
Quando um cargo público deixa de ser entendido como um serviço ao Estado e passa a ser visto como uma oportunidade de enriquecimento pessoal, perde-se um dos pilares fundamentais da governação: a confiança dos cidadãos.
A corrupção não destrói apenas os cofres do Estado. Ela compromete o desenvolvimento, reduz a qualidade dos serviços públicos, afasta o investimento, aumenta as desigualdades sociais e penaliza, sobretudo, os cidadãos mais vulneráveis.
Cada kwanza desviado representa menos escolas, menos hospitais, menos medicamentos, menos estradas e menos oportunidades para a juventude.
O combate à corrupção não pode depender apenas da ação da justiça ou da vontade política de um momento. Exige instituições fortes, independentes e imparciais, fiscalização permanente, proteção aos denunciantes e uma cultura de integridade que envolva toda a sociedade. A ética deve voltar a ser um requisito indispensável para quem exerce funções públicas.
Angola continua a precisar de um combate sério, contínuo e sem seletividade. A lei deve ser aplicada com o mesmo rigor a todos, independentemente da posição política, do poder económico ou da influência social. Só assim será possível restaurar a confiança dos cidadãos nas instituições e consolidar um verdadeiro Estado de Direito.
O país merece uma administração pública onde o mérito, a competência e a honestidade sejam mais valorizados do que os interesses pessoais. O combate à corrupção não deve ser apenas um slogan de governação, mas um compromisso permanente com as gerações presentes e futuras.
Afinal, quando a corrupção vence, perde o Estado. E quando o Estado perde, perdem todos os angolanos.