
A Polícia de Ordem Pública angolana vive hoje num limiar perigoso entre o dever e a impotência. A pressão demográfica, o crescimento urbano desordenado e a escalada de criminalidade transformaram o quotidiano policial numa travessia árdua, marcada por carências estruturais e por um desgaste moral profundo.
Como diria Frantz Fanon, “quando a estrutura se deteriora, o homem é forçado a sobreviver dentro dos escombros” — e muitos efetivos da polícia parecem sobreviver, não servir.
A realidade é crua: agentes enviados para operações complexas montados em motas avariadas, sem condições mínimas de segurança, veículos improvisados que nem sequer fazem parte da orgânica institucional.
Tudo isto porque as viaturas oficiais são poucas, e das poucas que existem, um número alarmante encontra-se parado, sucumbido a avarias mecânicas e à ausência de manutenção. Esta precariedade, que deveria ser exceção, tornou-se rotina.
A falta de condições nas unidades policiais — desde alojamentos degradados até equipamentos obsoletos — tem alimentado um sentimento de desmotivação generalizada.
Muitos jovens que sonhavam vestir a farda com orgulho veem-se hoje mergulhados num desencanto profundo, temendo um futuro sem reconhecimento, sem progressão e sem dignidade.
Como lembraria Amílcar Cabral, “ninguém luta eficazmente se não compreender as razões da sua luta” — e muitos agentes já não compreendem por que continuam a sacrificar-se.
A meritocracia, outrora princípio orientador, foi sendo substituída por práticas paralelas que corroem a moral interna. Promoções injustas, favoritismos, interferências externas e jogos de influência criaram um ambiente onde o mérito deixou de ser bússola e passou a ser exceção.
A instituição, que deveria ser exemplo de disciplina e rigor, tornou-se palco de desigualdades internas que fragilizam a sua própria autoridade.
Ainda assim, é justo reconhecer que existem oficiais e agentes que continuam a desempenhar a sua missão com um patriotismo inabalável. São homens e mulheres que, apesar das adversidades, mantêm viva a chama do dever. São eles que lembram que a polícia pode — e deve — ser um pilar de estabilidade nacional.
Mas também é verdade que há outros que se desviaram do caminho. Homens da lei que já não sabem que o são. Agem como se estivessem numa instituição civil, movidos por vaidade, exibicionismo e, em alguns casos, envolvidos em atividades criminosas.
Estes elementos, que deveriam proteger a ordem, tornam-se eles próprios agentes do caos. Hannah Arendt alertava para este fenómeno quando escreveu que “o mal prospera quando a responsabilidade se dissolve”. E é precisamente essa dissolução que se observa quando alguns agentes atropelam sistematicamente a lei que juraram defender.
A interpretação distorcida do poder policial — confundido muitas vezes com impunidade — tem criado um fosso perigoso entre a instituição e a população. A polícia, que deveria ser o mecanismo de estabilidade quotidiana, vê-se fragilizada por dentro e desacreditada por fora.
Angola precisa urgentemente de políticas sérias, estruturadas e humanas para resgatar a dignidade dos seus efetivos. Sem isso, continuará a crescer o abismo entre o que a polícia deveria ser e aquilo em que, lentamente, está a transformar-se.
*Investigador em Segurança e Defesa