
Não conheço Rafael Massanga Savimbi, vi-o pela primeira vez como convidado especial do programa radiofónico “Sem Fronteiras”, na Rádio Metodista, há cinco ou seis anos, produzido pelo agora deputado e amigo Olívio Nkilumbu.
Ouvi a sua entrevista no programa “Discurso Directo” da Rádio Ecclésia, reposta na quarta-feira desta semana e, depois, a sua declaração de anúncio da pré-candidatura à liderança da UNITA.
Acho que se precipitou por várias razões, entre elas o facto de ser uma espécie de “candidato natural”, a necessidade de a UNITA cerrar fileiras em torno da actual liderança, do precedente ocorrido com a sucessão de Samakuva (já me explico adiante) e da lógica simples segundo a qual os políticos visionários e inteligentes são aqueles que sabem o momento certo para entrar e sair.
Sendo filho de quem é, embora isso importe menos, mas atendendo ao percurso que está a ter, Rafael Massanga Savimbi é por si só uma figura a se ter em linha conta para a futura liderança da UNITA, quer se queira, quer não, mais cedo ou mais tarde.
E nestas coisas, mais tarde e num contexto de renovação de ciclo são sempre melhores momentos a dar o passo que pretende dar agora.
Rafael Massanga Savimbi devia ponderar o devido momento que, ao que tudo indica por não se encerrar ainda o ciclo de ACJ, não é este. Nesta altura, independentemente da aparente falta de unanimidade em torno da liderança de ACJ – já escrevi que não existem lideranças unânimes – na verdade, o actual líder da UNITA não tem alternativa no actual contexto dentro do partido.
Rafael Massanga Savimbi devia aprender com o que se passou com a sucessão de Samakuva, quando ACJ soube fazer uma correcta leitura, tendo apresentado a sua candidatura apenas depois de se certificar de que o embaixador Samakuva se iria retirar.
Acho que esse precedente devia servir para todos os aspirantes a candidato à liderança da UNITA nesta altura em que, se goste ou não de ACJ, a união em torno da actual liderança devia ser o mote e tudo indica que quem concorrer contra ACJ, nessa altura, vai acabar humilhado.
O melhor momento para Rafael Massanga Savimbi concorrer seria em 2027, por que uma eventual derrota da UNITA em tais eleições obrigará, inevitavelmente, a ACJ a colocar o lugar à disposição e naquele momento a perspectiva de uma entrada em grande seria óbvia e determinante.
Agora, num contexto em que a renovação do voto de confiança parece encaminhar-se para ACJ, constitui um mini suicídio político esse passo dado por Massanga Savimbi e, claramente, reveladora de que não está a ser inteligente e devidamente aconselhado.
Acho que uma das figuras que melhor leitura está a fazer, no quesito ligado ao melhor momento para entrar na corrida, é Liberty Chiaka, um político que, em minha opinião, tem o melhor perfil para, no devido momento, suceder a ACJ.
Por outro lado, um dos requisitos que retive, quando foi anunciado o rol de condições para se aceitar uma candidatura, foi a nacionalidade angolana e a pergunta que se impõe é se os estatutos da UNITA permitem que o seu líder e putativo candidato a Presidente da República tenha outra nacionalidade, adquirida no caso.
Sabe-se que Massanga Savimbi, pelo menos até 2002, não viajava com passaporte angolano e, sendo impossível se ter deslocado aos países da África Ocidental, alguns até onde viveu, algum documento estrangeiro terá usado nessas andanças. Já renunciou à nacionalidade ou nacionalidades dos passaportes com os quais viajava?
Fora desse “faits-divers” e voltando à candidatura de Rafael Massanga Savimbi, que enaltece a ideia das múltiplas candidaturas, nunca se sabe quando é que o seu anúncio é mesmo só para animar esse debate, o da liberdade que os militantes da UNITA têm, contrariamente aos outros partidos em que falar de múltiplas candidaturas gera ostracismo, isolamento e maus-tratos.
De qualquer modo, nunca se sabe quando é que Rafael Massanga Savimbi fez uma leitura oportuna decorrente do actual quadro de apoio com que conta, um facto que apenas o tempo vai provar, mas nesta altura o pior que pode acontecer com a UNITA são novas clivagens, novas divergências, facções e grupos opostos que podem surgir com o Congresso, exactamente por falta de uma mentalidade democrática quer da parte vencedora, como da perdedora.
Aguardemos pelos contornos da precipitada candidatura de Rafael Massanga Savimbi e o mini suicídio político em que incorre.
*Jornalista