
A desnutrição infantil continua a representar um dos maiores desafios de Saúde Pública em Angola, afectando, principalmente, crianças menores de cinco anos. Dados dos hospitais Pediátrico David Bernardino, Divina Providência e o dos Cajueiros, referencias no tratamento da doença no país, indicam que em média, estas unidades registam mais de 500 casos de desnutrição por mês.
No Hospital Pediátrico David Bernardino, por exemplo, são registados mensalmente, 640 casos de crianças internadas por desnutrição grave, este número preocupa os especialistas da instituição, de acordo com a chefe do Serviço de Nutrição da referida unidade sanitária.
Juliana Miranda explicou que o actual número de crianças com desnutrição supera o do ano passado. Só este ano, foram registados, até agora, 1.120 casos e na sua maioria menores de cinco anos.
A médica alerta para o agravamento da doença, que pode acarretar consequências irreversíveis no desenvolvimento físico e cognitivo das crianças.
A médica, que é especialista em Nutrição, explicou que a maior dos casos que dão entrada no hospital é desnutrição aguda severa e este é um tipo de desnutrição que geralmente começa nos primeiros anos de vida, fruto da não ingestão de nutrientes que necessita para o seu completo crescimento e desenvolvimento.
A chefe do Serviço de Nutrição do Hospital Pediátrico David Bernardino sublinhou que a desnutrição continua a ser um dos principais desafios da Saúde Pública em Angola, afectando o crescimento físico e o desenvolvimento cognitivo das crianças.
A especialista realçou que, na maioria dos casos, a desnutrição não vem sozinha, mas chega com outras patologias, como infecções, diarreias e pneumonias, exigindo uma abordagem clínica mais complexa.
Hospital Divina Providência
Já o Hospital Divina Providência, em Luanda, internou em 2025, cerca de 389 crianças. E de Janeiro a Março do corrente ano, encontram-se internados 101 pacientes menores de cinco anos, mas o hospital atende em média, 10 a 15 novos casos de desnutrição por dia, de acordo com a médica nutricionista e dietética, Ruth Rocha.
A chefe do Serviço de Nutrição da Divina Providência disse que a unidade tem registado casos preocupantes de bebés de apenas três meses, com sinais graves de desnutrição, apresentado edemas, que é uma das manifestações clínicas mais severas da doença.
Ruth Rocha explicou que a maioria das crianças internadas com desnutrição aguda severa, provém de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social.
Na maioria dos casos, informou, as mães são adolescentes, com idades compreendidas entre 15 e os 17 anos, bem como jovens de 18 a 20 anos, que enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada aos filhos.
Hospital dos Cajueiros
No Hospital Geral dos Cajueiros, localizado no município do Cazenga, foram registados 1.197 casos de desnutrição infantil nos primeiros cinco meses de 2026, um número que preocupa os profissionais de saúde e apelam ao reforçodas medidas preventivas contra a doença, de acordo com o médico Pediatra e chefe do Serviço de Nutrição da referida instituição.
Carlos Cutecha informou que 433 crianças estão internadas na Unidade Especial de Nutrição (UEN), enquanto 774 receberam assistência do Programa Terapêutico para Pacientes em Ambulatório (PTPA).
O médico salientou que foram registados,na referida unidade,22 óbitos associados a complicações clínicas da desnutrição, durante o período em análise na instituição.
Definição da doença e sintomas
A nutricionista Ruth Rocha definiu a desnutrição como condição grave, caracterizada pela ingestão ou absorção inadequada de nutrientes essenciais, causando um desequilíbrio entre o que o corpo necessita e o que realmente consome.
Pode ser causada pela falta de alimentos, dietas restritivas ou problemas de saúde que dificultam a absorção de nutrientes.
A desnutrição compromete o funcionamento dos órgãos, reduz a imunidade e, em casos prolongados ou severos pode levar à morte.
Os sintomas da doença variam de acordo com o grau e a carência nutricional específica, mas os principais sinais incluem perda de peso não intencional, fadiga, cansaço extremo, fraqueza muscular e tonturas, pele seca, áspera ou enrugada; unhas fracas e queda do cabelo, retardo no crescimento das crianças, perda de gordura e massa muscular, inchaço no abdómen ou nas pernas, apatia e deficiências de micronutrientes.
A desnutrição pode causar também sintomas como anemia (falta de ferro), problemas de visão (falta de vitamina A) e dores musculares (falta de vitamina D)
Causas
De acordo com a nutricionista Ruth Rocha, as causas primárias da desnutrição são os factores socioeconómicos, como desemprego, pobreza e insegurança alimentar, falta de acesso à água potável e insuficiência na educação nutricional.
Segundo a especialista, muitas famílias não conseguem garantir refeições regulares e equilibradas às crianças durante o dia, inclusive recebemos mães que afirmam que os filhos comem apenas uma vez por dia.
“E algumas famílias vivem em situação extrema, sem acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas”, lamentou.
Na opinião da nutricionista, a desnutrição não está apenas relacionada com a falta de alimentos, mas também com a qualidade da alimentação, o conhecimento das famílias sobre nutrição e as condições de saúde das crianças.
Nesse caso, explicou, já se trata de desnutrição secundária quando, mesmo comendo, o corpo não consegue reter ou processar os nutrientes de forma adequada.
E isso acontece quando a pessoa tem uma doença crónica e infecções como câncer, insuficiência renal ou infecções recorrentes (como HIV) que aumentam o gasto energético e causam perda de apetite.
Outra causa da desnutrição é o problema gastrointestinais, acentuou a médica, porque as Intolerâncias alimentares não tratadas (como doença celíaca), verminoses, diarreia crónica e doenças inflamatórias intestinais impedem a correcta absorção de vitaminas e minerais.
Ruth Rocha apontou também como causa secundária, os transtornos alimentares, os distúrbios psicológicos, anorexia nervosa e bulimia que levam à recusa voluntária da comida.
Outro grande factor da desnutrição e o desmame precoce. Muitas mães, por engravidar em curto espaço de tempo, deixa de amamentar o bebé, por acreditar que o leite já não presta. Mas isso é um mito, o leite não estraga porque a mulher voltou a engravidar cedo, isso é um mito, a mãe pode dar de mamar ao filho normalmente até ao momento de dar à luz a outro bebé.
Consequências
A desnutrição, explicou, pode deixar sequelas profundas no desenvolvimento físico, cognitivo e social das crianças, sobretudo quando os episódios ocorrem de forma repetida ou prolongada.
Entre as principais consequências destacam-se o atraso no crescimento, dificuldades de aprendizagem, baixo rendimento escolar e limitações na integração social.
“Quando a criança sofre episódios repetidos de desnutrição, pode apresentar dificuldades na absorção e compreensão dos conteúdos escolares, além de um desenvolvimento mais lento em comparação com outras crianças da mesma idade”, acentuo.
Tipos de desnutrição
O médico pediatra Carlos Cutecha disse que a desnutrição quanto aos tipos se classifica em aguda e crónica. Aguda é quando há perda de peso rápida ou restrição calórica recente. Já a crónica, se desenvolve ao longo de um período prolongado.
Esta forma de desnutrição afecta o crescimento e o desenvolvimento normal da criança, resultando em baixa estatura para a idade.
Quanto às formas clínicas graves, explicou, a desnutrição é classificada em Marasmo que é causado por uma deficiência global e severa de calorias e de todos os nutrientes. Esta provoca emagrecimento extremo, perda de massa muscular e tecido adiposo, com os ossos bastante visíveis.
Também há o Kwashiorkor que se caracteriza por uma carência severa e desproporcional de proteínas. O indivíduo pode não parecer visivelmente desnutrido porque apresenta inchaço (edema) geral e aumento do fígado.
Há ainda a desnutrição por deficiência de Micronutrientes, ocorre pela falta de vitaminas e minerais essenciais específicos (como ferro, zinco e vitamina A) comprometendo o sistema imunológico e o funcionamento global do organismo
Quanto ao Nível de Gravidade a desnutrição pode ser leve, onde o peso corporal está entre 10 a 25 por cento abaixo do peso ideal, moderada: o peso encontra-se entre 25 a 40 por cento abaixo do esperado.
Grave: défice de peso superior a 40 por cento em relação ao ideal, podendo haver perda de massa muscular extrema e maior risco de doenças oportunistas.
Combate à doença deve envolver a sociedade
De acordo com o especialista, é necessário haver um maior envolvimento dos diferentes sectores da sociedade para combater as causas estruturais da desnutrição.
Porque a desnutrição infantil não é apenas um problema médico, mas sim, de toda a sociedade, pós está ligada à pobreza, à falta de recursos e às dificuldades do dia a dia.
“É preciso reforçar o apoio às famílias vulneráveis, na promoção da segurança alimentar, e investir na educação nutricional”, disse.
Danos podem ser revertidos
A nutricionista acrescentou que alguns dos danos podem ser revertidos mediante melhorias nas condições nutricionais, sociais e educativas. Contudo, alertou, determinadas sequelas podem tornar-se permanentes quando a intervenção não ocorrer atempadamente.
O responsável realçou que as principais medidas se destacam com reforço da educação alimentar nas comunidades, promoção do consumo de alimentos naturais produzidos localmente, combate ao analfabetismo e o fortalecimento das campanhas de aleitamento materno.
“Não estamos bem, mas também não estamos mal. Tivemos 22 óbitos entre 1.197 crianças atendidas, sendo que a maioria dos casos esteve associada a doenças como malária, tuberculose e VIH. Embora que poderiam ser evitados com um esforço conjunto da sociedade no combate à fome e à desnutrição”.
Investir na nutrição é investir no futuro
O aumento dos casos de desnutrição registados nos hospitais, nos últimos dias , no país constitui um importante sinal de alerta para a saúde pública, por ser um problema multifactorial no qual exige uma resposta integrada de todos, alertou o nutricionista, presidente da Excelent Clinic.
O nutricionista Otoniel Nunes disse que além do tratamento dos casos mais graves, é necessário reforçar a educação alimentar, promover o aleitamento materno, melhorar as condições socioeconómicas das famílias e fortalecer os programas de apoio nutricional principalmente nas comunidades mais vulneráveis.
O nutricionista defende a necessidade de uma alimentação adequada, variada e rica em nutrientes para crianças do zero aos cinco anos, considerando a fase determinante para o crescimento, desenvolvimento cognitivo e fortalecimento do sistema imunológico.
Os primeiros meses de vida, disse, são fundamentais para a saúde da criança, recomendando que os bebés recebam exclusivamente leite materno até aos seis meses de idade, sem água, chás ou outros alimentos, frisando que a partir dos seis meses inicia a alimentação complementar com o aleitamento materno até aos dois ou mais anos.
A alimentação infantil, explicou, deve incluir todos os grupos alimentares, nomeadamente cereais e tubérculos, leguminosas, frutas, verduras, alimentos de origem animal e gorduras saudáveis.
“Uma alimentação equilibrada nos primeiros meses de vida do bebé é fundamental para assegurar o crescimento saudável, desenvolvimento cerebral, prevenção da desnutrição e o fortalecimento da imunidade”.
Preparação dos alimentos
Otoniel Nunes alertou, também, para a necessidade de preparar os alimentos de forma higiénica e adequada à idade da criança, no sentido de se evitar refrigerantes, doces, produtos ultra-ÁGIONA processados e o consumo excessivo de açúcar e sal.
Salientando que o leite materno ainda continua a ser uma importante fonte de nutrientes mesmo após a introdução de outros alimentos.
Além da alimentação, explicou, são indispensáveis as medidas complementares como a vacinação, acesso à água potável, boas práticas de higiene e o acompanhamento regular nos serviços de saúde.
Os pais devem evitar de esforçar os bebés e crianças pequenas quando estas rejeitam os alimentos, pois muitas vezes, a recusa faz parte do desenvolvimento normal da criança e pode estar relacionada com alguma doença, cansaço, nascimento dos dentes ou alterações na rotina.
Por isso, frisou, devem oferecer alimentos repetidamente em pequenas porções, variar as cores, formas de apresentação de modo a criar um ambiente tranquilo durante as refeições.
O especialista realçou que a nutrição adequada nos primeiros cinco anos de vida é um dos maiores investimentos que se faz na saúde e no futuro das crianças, porque uma alimentação equilibrada com aleitamento materno, previne doenças com destaque para a desnutrição.
in Jornal de Angola