
Um memorial constitui um espaço de homenagem e de preservação da memória colectiva. Neste caso, homenageia as vítimas de um conflito armado e simboliza o luto social, assumindo também um papel relevante na reparação histórica.
Estes monumentos transcendem a sua estrutura física, funcionando como espaços de reflexão, reconhecimento e apoio simbólico às comunidades que viveram esta realidade.
Este memorial assume particular relevância em duas dimensões fundamentais:
a) Reflexão Sociológica – constitui um espelho da história e das dinâmicas sociais que contribuem para a construção da identidade nacional, para a prevenção da amnésia colectiva e para o reconhecimento das experiências partilha- das;
b) Reflexão Psicológica – desempenha um papel importante na saúde mental comunitária, ao proporcionar um espaço de reconhecimento do sofrimento, de elaboração simbólica do trauma e de combate ao isolamento individual.
Segundo o sociólogo Michael Pollak (1991), “A memória não é um simples arquivo fixo ou uma reprodução exacta do passado, mas uma reconstrução contínua que acontece no presente.
É por meio da lembrança e da narrativa do que vivemos (enquanto indivíduos ou grupos) que conseguimos ligar o que fomos ontem ao que somos hoje.
É um elemento constituinte do sentimento de identidade individual e colectiva justamente por funcionar como esse pilar de coerência e continuidade. Sem ela, perderíamos a noção de trajectória.”
Neste contexto, os arquivos históricos e documentais assumem particular importância, na medida em que preservam registos de um dos processos mais violentos da história contemporânea nesta parte do globo.
O conflito em causa é descrito como um dos maiores confrontos militares ocorridos em solo africano desde a II Guerra Mundial e como uma das maiores batalhas terrestres do século XX.
Não se tratou de uma disputa meramente local, mas de um conflito profundamente internacionalizado, cuja compreensão exige a análise dos diferentes interesses e actores envolvidos.
Para além das perspectivas filosófica, antropológica, religiosa e social, a existência deste monumento constitui uma expressão de uma visão histórica assente na dignidade humana, no humanismo institucional e na valorização da vida, mesmo depois da morte.
Representa, igualmente, uma referência conciliadora, cujo significado pode contribuir para a reconstituição da memória histórico-militar, através da preservação e da valorização de discursos, entrevistas, documentos doutrinários, revistas e livros de reconhecido valor histórico.
Estes feitos não devem ser entendidos como elementos estáticos do passado, mas como referências vivas no presente, que convidam a sociedade a examinar continuamente o seu tecido social, a reconhecer as suas feridas emocionais e a reflectir sobre os caminhos para a consolidação dos valores da cidadania.
No estudo do passado, Geoffrey Cubitt, em History and Memory (2007, p. 2), analisa a influência da memória na interpretação histórica, salientando a forma como as recordações, as informações contidas nas fontes históricas e os ideais individuais e colectivos condicionam a interpretação dos acontecimentos.
A memória, enquanto conceito discursivo, permite, assim, compreender dimensões da experiência humana que a investigação histórica convencional nem sempre consegue apreender na sua totalidade.
A criação e a valorização de roteiros históricos associados aos monumentos devem transformá-los em pontos de visita e de reflexão patriótica.
Estes roteiros podem contribuir para valorizar a soberania nacional e aprofundar a compreensão da geopolítica actual, em particular no continente africano, aproximando as novas gerações dos acontecimentos que marcaram a história nacional e internacional.
A gratidão e o perdão podem contribuir para resgatar as memórias positivas, fortalecer a auto-estima e estimular o potencial individual e colectivo. Ao promoverem a reconciliação e uma compreensão mais ampla da experiência humana, permitem reconhecer que o sucesso também se constrói através daquilo que somos e fazemos, dos valores que cultivamos e da forma como nos relacionamos com os outros.
*Psicólogo e autor