Não existe investigação científica em Angola – Nsambanzary Xirimbimbi
Não existe investigação científica em Angola - Nsambanzary Xirimbimbi
Xirimbimbi

Nos quatro artigos que antecederam este, procurei esclarecer alguns dos conceitos básicos que sustentam a produção do conhecimento científico. Abordei o que é uma comunidade científica, expliquei o processo de revisão por pares (peer review), discuti a importância das revistas científicas indexadas e procurei demonstrar que a ciência moderna não é uma atividade solitária, mas sim um empreendimento coletivo, cumulativo e institucional.

Todos esses conceitos convergem para uma conclusão inevitável: a ciência não é um ato individual; é um processo social. Esta afirmação parece simples, mas tem implicações profundas para a realidade académica angolana.

A ciência, tal como hoje a conhecemos, é resultado de séculos de construção institucional. Nenhum investigador produz conhecimento relevante isoladamente.

Cada estudo parte de investigações anteriores, dialoga com a literatura existente, é submetido ao escrutínio dos pares, publicado em revistas científicas credíveis e, posteriormente, utilizado por outros investigadores que continuarão esse mesmo processo. O conhecimento científico cresce precisamente porque é cumulativo.

É por isso que a ciência depende da existência de uma comunidade científica organizada. Uma comunidade científica não é apenas um conjunto de pessoas com diplomas universitários. É um ecossistema intelectual composto por investigadores ativos, universidades, centros de investigação, laboratórios, revistas científicas, congressos, grupos de investigação, sociedades científicas, redes internacionais de colaboração e mecanismos permanentes de validação do conhecimento.

É nesse ambiente que as ideias são debatidas, criticadas, aperfeiçoadas e, quando resistem ao escrutínio metodológico, incorporadas ao património científico da humanidade. Sem esse ecossistema, o que existe pode ser produção intelectual, reflexão académica ou opinião qualificada. Mas dificilmente será ciência no sentido mais rigoroso.

É aqui que se encontra um dos maiores desafios da nossa academia. Temos universidades. Temos docentes. Temos estudantes. Temos programas de pós-graduação. Temos, inclusive, pessoas com títulos académicos elevados. Mas isso, por si só, não significa que possuímos uma comunidade científica consolidada.

Uma comunidade científica distingue-se não pelos títulos dos seus membros, mas pela intensidade da produção científica, pela cultura de investigação, pela existência de revistas científicas de qualidade, pelo funcionamento regular do processo de revisão por pares, pela participação em redes internacionais de investigação e pela capacidade de produzir conhecimento novo reconhecido pela comunidade científica internacional. É essa estrutura que ainda se encontra insuficientemente consolidada entre nós.

Naturalmente, em Angola existem alguns investigadores sérios, pouquíssimos grupos de investigação e produção científica relevante. Seria incorreto ignorar esses esforços. No entanto, também é verdade que o sistema nacional de investigação ainda enfrenta muitas limitações, como a quase inexistência de produção científica indexada, o financiamento insuficiente para a investigação, poucas revistas com grande visibilidade internacional e uma cultura de investigação ainda em construção.

Quando observamos sistemas científicos mais maduros, identificamos características que ainda buscamos fortalecer. As universidades vivem da investigação. Os docentes são avaliados pela produção científica. As revistas científicas funcionam regularmente. Os artigos passam por rigorosos processos de revisão por pares.

Os estudantes de mestrado e de doutoramento integram grupos de investigação desde o início da formação. Os congressos científicos tornam-se espaços permanentes de debate metodológico. As decisões académicas são fortemente orientadas pela evidência científica. É assim que se constrói uma comunidade científica.

Não basta publicar textos. É necessário produzir investigação. Não basta realizar pesquisas bibliográficas. É necessário formular problemas científicos. Não basta apresentar opiniões fundamentadas. É necessário produzir evidências. Não basta escrever. É necessário submeter o trabalho ao escrutínio da comunidade científica. É esse escrutínio que garante a qualidade da ciência. Quando um investigador submete um manuscrito a uma revista indexada, aceita que especialistas independentes analisem criticamente a sua investigação.

Esses revisores não procuram agradar ao autor. Procuram proteger a qualidade da ciência. Verificam se a metodologia é adequada. Avaliam a coerência entre os dados e as conclusões. Identificam limitações. Solicitam correções. E, quando necessário, rejeitam o manuscrito. É esse processo que confere legitimidade científica ao conhecimento produzido.
Nenhum artigo científico pode verdadeiramente receber essa designação apenas porque o autor assim o afirma. Ele torna-se científico porque resistiu ao escrutínio metodológico dos seus pares. Infelizmente, ainda encontramos entre nós uma preocupante banalização destes conceitos.

É comum ouvir pessoas afirmarem que realizaram uma investigação científica ou escreveram um artigo científico sem nunca terem participado num verdadeiro processo de revisão por pares, sem publicarem em revistas indexadas e, por vezes, sem sequer dominarem conceitos básicos da metodologia científica.

Na maior parte dos casos, desconhecem completamente o percurso que um verdadeiro manuscrito deve seguir até ser aceite para publicação. Desconhecem a importância da revisão sistemática da literatura. Nunca utilizaram bases de dados científicas internacionais. Nunca receberam pareceres metodológicos. Nunca reformularam um artigo em resposta às observações dos revisores. Apesar disso, apresentam os seus textos como investigação científica. Este fenómeno não fortalece a academia. Fragiliza-a.

Porque banaliza aquilo que deveria representar o padrão mais elevado de produção intelectual. A ciência exige humildade. Nenhum investigador sério acredita que o seu trabalho está acima da crítica. Pelo contrário, quanto mais maduro é um cientista, maior costuma ser a sua abertura ao escrutínio metodológico.

Essa cultura precisa ser consolidada entre nós. Precisamos de normalizar uma academia em que a crítica científica seja encarada como instrumento de melhoria, e não como ataque pessoal. Precisamos de universidades que valorizem efetivamente a investigação.

Precisamos de revistas científicas robustas e reconhecidas. Precisamos fortalecer os programas de pós-graduação. Precisamos de investir seriamente na formação de investigadores. Precisamos de criar condições para que a investigação científica deixe de ser episódica e passe a constituir uma atividade permanente das nossas instituições de ensino superior.

Não se trata de copiar modelos estrangeiros. Trata-se de adotar padrões internacionais de qualidade universalmente reconhecidos. Porque a ciência não possui nacionalidade. Os critérios que validam uma investigação em Londres, Joanesburgo, São Paulo ou Tóquio são exatamente os mesmos que devem validar uma investigação produzida em Luanda.

No contexto atual do nosso país, marcado por um sistema educativo ainda fragilizado, escassez de mão de obra altamente qualificada, reduzida produção científica internacional e enormes desafios ao desenvolvimento, torna-se indispensável fortalecer os alicerces da nossa academia.

Sem uma comunidade científica forte, sem revistas científicas credíveis, sem revisão rigorosa por pares e sem uma verdadeira cultura institucional de investigação, dificilmente construiremos um sistema científico capaz de responder aos grandes problemas nacionais.

É por isso que devemos abandonar qualquer romantização da realidade. Reconhecer as fragilidades do nosso sistema científico não constitui um ataque às nossas instituições. Pelo contrário, é o primeiro passo para fortalecê-las. Porque nenhuma sociedade se desenvolve de forma sustentável sem ciência. E não existe ciência robusta sem comunidade científica.

*Docente

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