
Sebastião Lino emprestou-me, em finais de 1992, nos corredores da Rádio Nacional de Angola, uma obra de referência da história e do direito internacional: “O Processo de Nuremberga”. Li-o com o pé às costas. Reli na semana seguinte. Queria compreender melhor a História. E compreendi. Retive. Entendi partilhar a experiência com Sílvia Milonga.
Depois de ouvir o que tinha apreendido do livro, ela pediu-me que lho emprestasse. Respondi-lhe que não era meu. Pertencia a Sebastião Lino. Mas insistiu. E acabei por emprestar. Nunca mais o devolveu. Sebastião Lino ficava furioso.
Bufava de raiva sempre que me pedia o livro. Eu hesitava em contar-lhe a verdade. Sílvia Milonga tinha-o extraviado. Era o segundo livro perdido. O primeiro fora “Teresa Baptista Cansada de Guerra”.
De Jorge Amado. Comprei-o num alfarrabista. Na entrada do mercado do Kinaxixi, em Luanda.
As façanhas da Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) chegaram à ONU como exemplo de reconciliação nacional e consolidação da paz. Na sede das Nações Unidas.
Em Nova Iorque. A apresentação foi feita pelo representante permanente de Angola junto da ONU. Durante a Comissão de Consolidação da Paz. Falou-se de reconciliação. Falou-se de paz. Mas ficaram perguntas por responder.
O Julgamento de Nuremberga foi um conjunto de tribunais internacionais. Entre 1945 e 1946. Em Nuremberga. Julgaram dirigentes nazis. Por crimes de guerra. Crimes contra a humanidade. Crimes contra a paz. Daqui ficou um princípio essencial. Nenhum dirigente está acima da lei internacional.
Venhamos a nós. O trabalho da CIVICOP é frequentemente descrito como um expediente necropolítico com indícios graves de fragilidade e controvérsia. Há quem o considere metodologicamente frágil e politicamente mal enquadrado. Trata-se de um processo que levanta dúvidas sérias.
As ossadas alegadamente encontradas na vala comum do Cemitério do Km 14, em Luanda, continuam a suscitar interrogações. Interrogações que não podem ser ignoradas. Há quem admita que não correspondam às identidades divulgadas. Há quem questione a sua própria origem.
Algumas leituras sugerem a possibilidade de se tratarem de mercenários zairenses mortos em Luanda, na fase pré-independência, em contexto de combate urbano, incluindo episódios ligados à antiga fábrica Mabor.
São hipóteses. E continuam por confirmar. O problema mantém-se. As ossadas podem estar a ser apresentadas com identidades que não resistem ao rigor da verificação histórica. Ou, noutro plano, podem estar a ser atribuídas sem prova suficiente.
O general António José Maria ainda está vivo. Respira. Está lúcido. A sua eventual audição poderia ajudar a iluminar episódios ainda envoltos em sombras históricas. Não custa ouvir quem ainda pode falar. O que não é aceitável é a pressa em fixar versões definitivas. Nem a utilização da morte como instrumento político.
A profanação de mortos constitui uma violação grave da dignidade humana. A CIVICOP é um projecto politicamente controverso e de execução tecnicamente discutível. Estratégica e metodologicamente fragilizado.
Um projecto sem indicadores claros de sucesso ou sustentabilidade. A sua acção levanta questões éticas profundas. A memória das vítimas não pode ser reduzida a instrumento de propaganda. Nem convertida em campo de disputa política.
Quando o Estado falha no rigor da verdade, falha duas vezes. Na justiça e na memória. A dor não pode ser instrumentalizada. Nem os mortos usados como prova conveniente. O resto é silêncio conveniente. Ou, pior ainda, manipulação.
Mudança de página. Chega de especulação. Chega de mujimbo. Nos últimos dias, multiplicaram-se as especulações sobre o estado de saúde do Presidente da República. Os factos são os seguintes: João Lourenço deslocou-se ao Brasil para realizar um controlo de rotina à visão.
O episódio tem antecedentes. Em 2017, antes da tomada de posse como Chefe de Estado, João Lourenço foi submetido a uma intervenção cirúrgica aos olhos. Durante esse período, surgia frequentemente em público com óculos de sol.
Nos comícios, recorria com frequência a um lenço para limpar as lágrimas, em consequência do lacrimejar provocado pela recuperação pós-operatória. Posteriormente, foi submetido a novas cirurgias corretivas.
É neste contexto que deve ser enquadrada a sua deslocação ao Brasil, evitando interpretações especulativas desprovidas de fundamento factual.
*Jornalista