
Luanda viveu ontem, sexta-feira, 22, um dos momentos mais simbólicos e emocionalmente carregados do processo de reconciliação nacional ligado aos acontecimentos do 27 de Maio de 1977.
Entre lágrimas, abraços silenciosos e vozes embargadas pela dor, familiares receberam os restos mortais de nove vítimas identificadas numa vala comum descoberta no Cemitério da Mulemba, conhecido como “14”.
O acto, realizado na Centralidade do Kilamba, decorreu num ambiente de profundo luto e reflexão. Vestidos maioritariamente de preto, familiares, membros do Executivo, representantes religiosos e integrantes da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) prestaram homenagem às vítimas de um dos períodos mais traumáticos da história contemporânea de Angola.
A cerimónia aconteceu num contexto de luto nacional decretado pelo Presidente da República, João Lourenço, e marca o início formal da entrega das primeiras ossadas identificadas entre os 623 restos mortais exumados da vala comum do Cemitério da Mulemba.
Os restos mortais entregues correspondem a Adriano Cassule (guarda costas de Nito Alves), Alberto Fernando, Elisário Vieira Lopes, Francisco Manuel Quibonda, Geraldo Capamba, Jorge Alberto Menezes, Jorge Gonga Sombo (motorista de Nito Alves), José António Amaro e Pedro Martins de Sousa.
Neste âmbito, já foram exumados os restos mortais de figuras envolvidas nos acontecimentos do 27 de Maio de 1977 como Nito Alves, Monstro Imortal, Sianouk, Ilídio Ramalhete e Eduardo Ernesto Gomes “Bakalof”.
Segundo a especialista do Laboratório Central de Criminalística, Sandra Morais, o processo exigiu um trabalho técnico complexo devido ao avançado estado de degradação das ossadas.
Apesar das dificuldades, o momento foi encarado por muitas famílias como o encerramento de um ciclo de incerteza que durava há quase cinquenta anos.
“Nenhum angolano deve morrer nas mãos de outro angolano”
Um dos momentos mais marcantes da cerimónia foi protagonizado por Zeca Amaro, filho de José António Amaro, que recebeu os restos mortais do pai das mãos do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos e coordenador da CIVICOP, Marcy Lopes.
Mergulhado em lágrimas e com voz trémula, Zeca Amaro relatou os 49 anos de dor e sofrimento da família, que desconhecia o paradeiro do pai, defendendo que “nenhum angolano deve morrer nas mãos de outro angolano”.
“Ao Governo de Angola eu peço que façam tudo o que for possível para que isso nunca mais volte a acontecer, nenhum angolano deve morrer na mão de outro angolano, somos irmãos, esses que vão ser enterrados lutaram para libertar Angola e pouco após a independência foram mortos pelos seus próprios camaradas”, lamentou.
Zeca Amaro defendeu uma “verdadeira reconciliação” entre todo o povo angolano, “sem distinção de partido político ou ideologia”, tendo questionado – aludindo ao lema da CIVICOP “abraçar e perdoar” – o destinatário do abraço de perdão.
“A quem vamos abraçar, a quem vamos perdoar se não sabemos quem são [os autores] oficialmente? Temos ideias, mas seriam eles a vir falar para nos ajudar a ultrapassar esse ciclo de dor e ajudar a curar as nossas feridas”, apelou.
Em lágrimas, Maria de Lurdes Neto, que recebeu esta Sexta-feira os restos mortais do irmão Pedro Martins de Sousa, contou que a vida da família foi um terror na sequência do 27 de Maio de 1977, agradecendo, no entanto, a Deus por terem sobrevivido nestes quase 50 anos de espera: “Nós sobrevivemos graças a Deus, não estou aqui para apontar culpas eu só peço que isso não volte a acontecer”.
Também Maria de Lurdes Neto, irmã de Pedro Martins de Sousa, descreveu os anos que se seguiram ao 27 de Maio como um verdadeiro terror para a família. Em lágrimas, agradeceu a sobrevivência da família durante décadas de silêncio e medo.
“Não estou aqui para apontar culpados. Apenas peço que isso nunca mais volte a acontecer”, declarou.
Já Rita Agostinho de Sousa considerou o gesto da CIVICOP e do Presidente João Lourenço um passo importante para devolver dignidade às famílias das vítimas, permitindo finalmente a realização de funerais condignos.
Reconciliação sem julgamento
O ministro Marcy Lopes destacou o carácter simbólico do acto e defendeu que a principal lição retirada do processo é a necessidade de construção de um país unido.
“A história não se apaga. A superação das tragédias exige reconciliação, união e objectivos comuns”, afirmou.
Na mesma linha, o jurista Luís Jimbo, membro da Comissão Técnica da CIVICOP, explicou que o processo não tem como objectivo julgar pessoas, mas sim curar feridas históricas.
“Todos os processos de reconciliação servem para curar e não para julgar. Estamos a devolver nomes, histórias e dignidade às vítimas e aos seus familiares”, sublinhou.
O padre Celestino Epalanga, secretário da Comissão de Justiça e Paz da CEAST e também membro da CIVICOP, considerou que a cerimónia representa “um passo importante rumo à cura da memória”.
“Muita gente esperou quase cinquenta anos para saber o destino dos seus familiares. Agora, algumas famílias finalmente têm respostas”, afirmou.
A CIVICOP instalou, no Kilamba, postos de entrega de certidões de óbito, espaços de reconhecimento de objectos pessoais encontrados nas exumações e locais para recolha de amostras de DNA de outros familiares que ainda procuram os seus entes queridos desaparecidos.
Segundo Marcy Lopes, os postos funcionarão durante quinze dias, permitindo a continuidade do processo de identificação.
As ossadas entregues esta sexta-feira foram sepultadas hoje, sábado, no Cemitério do Benfica, em Luanda, num acto igualmente marcado por forte comoção popular.
Os acontecimentos do 27 de Maio de 1977 continuam a ser uma das páginas mais dolorosas da história de Angola. Durante décadas, milhares de famílias viveram sem respostas sobre o paradeiro dos seus familiares desaparecidos.
A criação da CIVICOP, em 2019, pelo Presidente João Lourenço, abriu um novo capítulo no reconhecimento oficial das vítimas dos conflitos políticos ocorridos entre 1975 e 2002.
Ainda assim, para muitas famílias, a reconciliação plena continua dependente não apenas da devolução das ossadas, mas também do reconhecimento integral da verdade histórica.
O silêncio de décadas começa lentamente a ser quebrado. Mas as cicatrizes permanecem vivas na memória colectiva de Angola.
Na quarta-feira última, o Presidente da República, João Lourenço, visitou as obras do Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, com uma execução física de 75%, e do Panteão Nacional, cuja execução física se encontra em torno de 22%, localizados no mesmo perímetro, junto à Praça da República.
O Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos é uma infra-estrutura carregada de memória e elevado simbolismo, uma vez que representa a paz entre os irmãos angolanos e a reconciliação nacional, ao mesmo tempo em que eleva a cultura dos nossos povos.
A sua estrutura comporta uma “Aliança Eterna”, composta por duas torres de nove pisos cada, que representa um pedido de perdão e a união indissolúvel do povo, enraizada nas tradições e na identidade da Nação; um “Hall de Memória”, que representa o renascimento da memória histórica e da paz e evoca o espírito de reconciliação e um ambiente de paz onde repousam os nossos ancestrais; e uma “Mulembeira da Reconciliação”, que simboliza a passagem geracional de conhecimento e representa um legado de sabedoria oral da nossa história, transmitindo uma verdadeira reconciliação com base no diálogo.
Por sua vez, o Panteão Nacional é um mausoléu que está a ser erguido para homenagear, honrar e abrigar os restos mortais de heróis nacionais ou figuras que se destacarem na história do nosso país.