
Uma jovem de 28 anos, portadora de condição intersexual (hermafrodita), foi submetida com sucesso a uma cirurgia plástica e reconstrutiva dos órgãos genitais, realizada recentemente no Hospital Geral do Cunene “General Simione Mucune“, no âmbito de uma campanha de consultas e cirurgias complexas levada a cabo de 5 a 11 de Maio.
A paciente, que apresentava características externas predominantemente femininas, mas com presença de órgão genital masculino e ausência de canal vaginal, beneficiou de um procedimento cirúrgico gratuito conduzido por uma equipa multidisciplinar composta por médicos nacionais e expatriados.
Em declarações à imprensa, a jovem expressou profunda gratidão e emoção, relatando os desafios enfrentados ao longo da vida devido à sua condição.
“Quem olha para mim, vê logo uma moça. Tenho características femininas, mas tinha o empecilho de um pénis e um pequeno orifício vaginal, o que me inibia de me relacionar com outras pessoas”, contou.
Segundo revelou, desde os 12 anos tinha consciência da sua condição, mas apenas agora conseguiu acesso ao tratamento. Tentativas anteriores, incluindo em 2018 no Hospital Geral de Ondjiva, foram frustradas devido à falta de recursos técnicos e financeiros.
O director-geral do Hospital Geral do Cunene, Hamilton Tavares, explicou que a intervenção foi composta por três etapas cirúrgicas principais: a retirada do órgão genital masculino, a criação de uma neo-vagina com preservação da sensibilidade sexual e a reestruturação do aparelho urinário, incluindo o reimplante do uréter e a criação de um vestíbulo vaginal funcional.
“Foi um procedimento cirúrgico de alta complexidade, normalmente de custo elevado a nível internacional, mas realizado de forma totalmente gratuita por profissionais angolanos e estrangeiros”, disse o médico.
O responsável clínico frisou ainda que a paciente se encontra estável, sem complicações pós-operatórias, e já completou 24 horas sem o uso de sondas urinárias.
No entanto, a sua alta hospitalar dependerá da avaliação das condições habitacionais e de higiene do lar, a ser conduzida por uma equipa multisectorial coordenada pelo gabinete de Acção Social e profissionais do atendimento ao utente.
A cirurgia representa não apenas um avanço técnico, mas também um marco humanitário, ao devolver dignidade e bem-estar a uma cidadã que, durante anos, sofreu com o estigma e limitações impostas por uma condição de saúde complexa e raramente abordada nos sistemas de saúde pública africanos.