O sofrimento das FAA e da PNA que a Assembleia Nacional não quer ver e nem ouvir – Lando Miguel
O sofrimento das FAA e da PNA que a Assembleia Nacional não quer ver e nem ouvir - Lando Miguel
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A primeira violência é o abandono.” — Frantz Fanon

O sofrimento das Forças Armadas Angolanas (FAA) e da Polícia Nacional de Angola (PNA) tornou-se uma ferida moral e institucional que atravessa o país como uma sombra persistente.

Durante anos, os debates parlamentares revelaram uma unanimidade silenciosa: todos reconhecem a gravidade da situação, mas ninguém age. Esta omissão colectiva transformou-se numa forma de violência política, onde o abandono substitui a responsabilidade.

Os homens e mulheres que vestem a farda do Estado vivem numa humilhação institucional prolongada. Os salários insuficientes empurram-nos para dívidas dentro e fora dos quartéis, levando muitos a perder o controlo dos seus cartões de crédito e a submeter-se a juros que se tornam verdadeiras sentenças financeiras. 

Não se trata de má gestão pessoal, mas de sobrevivência. Como escreveu Hannah Arendt, “a necessidade é o mais tirânico dos senhores”, e nas FAA e PNA essa tirania tornou-se quotidiana.

A contradição política é evidente: os efectivos são lembrados apenas quando a turbulência social exige intervenção. Nesses momentos, surgem vozes que proclamam que “a polícia é do povo” e que “as forças armadas pertencem ao povo”. 

Porém, quando o tema é o seu bem-estar, o Parlamento cala-se. A retórica é pública; o abandono é privado. O povo que exige segurança é o mesmo que, muitas vezes, não respeita os seus guardiões, e os deputados que exigem ordem são os mesmos que recusam discutir as condições de quem a garante.

A realidade é brutal. Militares e polícias vivem mergulhados na pobreza, atolados em dívidas que nem seis salários acumulados num único mês conseguiriam liquidar. Nos quartéis, os AVC tornaram-se sombras silenciosas, e o medo do amanhã assombra os efectivos. 

Alguns, desesperados, chegam ao extremo de alugar armas de fogo para sobreviver, quando não são eles próprios a entrar em cenários de risco. Enquanto isso, a Assembleia Nacional parece hibernar, preocupada com benefícios parlamentares, enquanto as famílias dos guardiões do Estado vivem em condições desumanas.

José Saramago lembrava que “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”, e a responsabilidade, neste caso, está a ser abandonada.

O sofrimento dos efectivos manifesta-se em várias dimensões. No plano material, enfrentam salários incapazes de cobrir necessidades básicas, endividamento crónico, juros abusivos e quartéis degradados.

Zygmunt Bauman dizia que “a insegurança é a nova forma de controlo social”, e os efectivos vivem precisamente nessa insegurança permanente — económica, social e emocional.

No plano psicológico, enfrentam ansiedade constante, depressão silenciosa, doenças cardiovasculares e desgosto profundo. Arendt lembrava que “o sofrimento invisível é o que mais destrói a dignidade humana”, e nas FAA e PNA esse sofrimento tornou-se rotina. 

Moralmente, são chamados de guardiões da pátria, mas tratados como órfãos da política. Fanon escreveu: “Nada é mais violento do que pedir sacrifício a quem já foi sacrificado.” É exactamente isso que acontece: o Estado exige patriotismo, mas oferece abandono.

O sofrimento familiar é igualmente devastador. Lares em condições desumanas, filhos sem estabilidade, famílias esmagadas por dívidas — a crise dos efectivos não é individual, é transgeracional. 

No plano institucional, a Assembleia Nacional deveria fiscalizar o Executivo, debater problemas nacionais, propor soluções e representar o povo — incluindo os fardados. Mas perante o sofrimento das FAA e PNA, reina uma surdez conveniente.

Saramago lembrava: “A cegueira também é isto: viver num mundo onde se apagou a responsabilidade.” E a responsabilidade, neste caso, está apagada.

O sofrimento existencial é o ponto mais perigoso: quando a farda deixa de proteger. Há efectivos que alugam armas, entram em esquemas ilegais por desespero, perdem a esperança no amanhã e sentem que o país não precisa deles — apenas da sua presença quando há crise. É o momento em que o guardião perde a fé na casa que guarda.

Explorar esta dor é perceber que a segurança nacional está insegura, que os protectores estão desprotegidos, que o Estado exige disciplina mas oferece abandono, e que a Assembleia Nacional exige ordem mas recusa ouvir a desordem humana dos seus guardiões. 

Paul Ricoeur escreveu que “a injustiça começa quando alguém deixa de ser visto como sujeito e passa a ser tratado como instrumento”. É exactamente isso que está a acontecer.

Acordem, chefes. Acordem, deputados. Acordem, ministros. O país não pode continuar a exigir heroísmo a quem mal consegue sobreviver.

*Investigador em Segurança e Defesa

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