Jornalismo: o fim do texto original – Caetano Júnior
Jornalismo: o fim do texto original - Caetano Júnior
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O jornalista entra num restaurante. Senta-se a uma mesa e pede o cardápio. O atendente mostra-lhe um papel com o Código QR ou, do inglês, Quick Response (Resposta Rápida). O jornalista foca a câmara do seu telefone smart no código de barras, que, no espaço de tempo inferior ao do virar de uma página, disponibiliza a informação: uma diversidade de pratos à disposição. Cabe-lhe escolher. O jornalista pede o que pretende. Diz que é para levar.

Para o restaurante, o Código QR é também um atalho que abrevia o tempo e ajuda a reduzir esforços dentro do conjunto de serviços que presta. É o uso inteligente dos avanços tecnológicos.

Um Código QR pode ser gerado por Inteligência Artificial (IA), a mesma de que, cada vez com mais frequência, se apropria o jornalista para desviar-se do caminho que leva à produção do texto original, o autêntico, o primário, o escrito por quem o assina.

Neste contexto, a utilização indevida, e até fraudulenta, da IA não é culpa desta, é de quem a tem como um menu que oferece géneros jornalísticos ao custo do mexer das pálpebras, da preguiça mental e da recusa do esforço analítico.

De facto, ganha forma na produção textual que sai para o público uma conduta que aos poucos se padroniza; um proceder que, por um lado, leva ao enaltecimento quem não o merece e, por outro, espezinha a competência escrita, vulgariza a capacidade intelectual e despreza o génio criativo de quem se quer imaculado no ofício de escrever. É o patamar único para todos.

Antes, era o plágio, o mais elementar, a apropriação de ideias, textos ou trabalhos de outrem, sem citar a origem, sem dar os devidos créditos a quem os produziu. Descarados roubos intelectuais em decorrência dos quais pretensos estudantes, pesquisadores e “pensadores”, enfim, usurpadores do esforço alheio saíram glorificados.

Intrínseca ao oportunista é a arte de se empenhar numa tarefa o mínimo que puder. O plágio, embora exercício indigno para um ser que se quer pensante, representa, para quem se alimenta do labor alheio, uma busca que exige certa paciência.

Para mais poupança das energias, era preciso avançar para o nível seguinte, um superestrato, que oferecesse mais qualidade à produção escrita ao mínimo esforço. E veio, para os afeiçoados ao sacrifício zero, a IA.

É a sorte a perseguir os audazes. O quadro evoluiu. O advento das novas tecnologias dá a todos e a qualquer um a oportunidade de se revelar intelectualmente. E então? “Plágio” passou a vocábulo antiquado e o “roubo intelectual” saiu de cena, deixou de ser parte integrante da discussão.

Agora, quase já não há quem se aproprie do escrito alheio. O “ladrão intelectual” de ontem encomenda um texto, à medida, directamente da IA. A pequenez moral e a incompetência técnica encontram na simuladora do raciocínio humano o caminho mais curto para o reconhecimento profissional de que precisa quem o persegue. Numa frase simples – mesmo assim escrita com erros de ortografia e deficiência sintáctica – o jornalista pede um artigo à IA. A resposta chega em instantes.

Um tema que ele nunca ousou abordar sequer numa notícia, porque lhe falta a mais rudimentar ciência, sai para o domínio público sob sua chancela. O escrito acaba guarnecido de elogios e o “autor”, altivo, a pavonear-se, sem rebates de consciência, sem remorso.

Nestes tempos, os nossos olhos descem sobre textos – artigos na sua maioria – que comprovam o lugar malicioso para onde jornalistas descaminham o manancial de utilidades e o potencial da IA.

A ferramenta chega assoberbada de boas intenções, grávida de serviços e aplicações, mas a iniquidade do Homem usa-a, igualmente, para fins lesivos à moral e à ética.

No caso, chega a fazer do dispositivo meio para insuflar o ego cada vez mais carente de atenção, sempre mais sequioso por visibilidade. Um estridente clamor por aprovação. Mas esquece, quem procura destaque com recurso a textos encomendados da IA, que o Jornalismo é um lugar colectivo e de partilha mútua de conhecimento.

Sempre haverá um colega que se lembra do último texto que rabiscámos. Leu-o na forma virgem. Não acredita numa tão rápida evolução – na verdade uma “revolução” -, que é como sair da redacção “As Minhas Férias”, na 4ª Classe, e no mês seguinte discorrer um portento a beirar o “Ensaio Sobre Cegueira” de Saramago. Anda o colega a rir-se de nós, a aplaudir-nos ironicamente.

Vale, sim, sermos genuínos, puros; aceitarmo-nos como realmente somos, com as debilidades, com as valências, a nossa marca, a singularidade, a individualidade. A IA é um campo aberto de tentações que desafiam o carácter, a honra, a integridade moral e a credibilidade dos profissionais das mais diferentes áreas do conhecimento.

É, pois, preciso resistir-lhe, quando em causa estiverem os valores acima alinhados. Ademais, é preciso ter em atenção que se o homem erra, a máquina falha. A IA não é indefectível. Traz logros, contém desinformações, distorções, omissões e até inverdades.

Em suma, o Jornalismo em Angola parece viver uma transição, que, a completar-se, representará a sua desintegração do passado que o alicerçou, edificou, aperfeiçoou e consolidou.

O Jornalismo angolano fez um percurso no qual a descoberta, a resistência e a observância dos valores humanos, os princípios éticos que orientam a vida em sociedade, marcaram-no de forma indelével. E exigiu empenho dos pioneiros; determinou dedicação ao grupo de compatriotas que o fundou. E a mudança que o contexto anuncia vem numa embalagem que deve inspirar receios.

A ameaça é o retorno ao zero ou mais grave. Quem agora entra para a tribo do nosso Jornalismo, cuja edificação acolheu a primeira pedra há mais de 50 anos, parece pouco se importar com o legado que lhe caiu no regaço; parece indiferente a quem o precedeu.

Talvez o olhe como adereço ou, o que é pior, destroço de um monumento abandonado às intempéries para uma rápida e mais fácil degradação. O recém-chegado encontra na IA a redenção. Afinal, não há “mestre” mais confiável.

Quem hoje se junta à tribo não hesita em ver em si mesmo o novo farol que orienta velhas e decrépitas embarcações, cujo naufrágio, acredita, tem data e hora marcadas. E depois vai ele mesmo à IA encomendar um texto, uma ode para poetizar “o fim glorioso da nau, depois de anos de laboriosas jornadas e entrega ao serviço público que é o Jornalismo”. Ora bem…

*Jornalista

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