A nova ordem internacional bipolaridade multilateralizada – General Kamalata Numa
A nova ordem internacional bipolaridade multilateralizada - General Kamalata Numa
numa

A Ordem Internacional do século XXI atravessa uma transformação estrutural de magnitude comparável à ocorrida após o Congresso de Viena, o fim da Segunda Guerra Mundial e o colapso da União Soviética.

Todavia, a configuração emergente não pode ser adequadamente explicada pelas categorias tradicionais da unipolaridade, da bipolaridade clássica ou da multipolaridade.

Cada uma destas categorias descreve apenas uma parte da realidade, mas nenhuma consegue apreender a arquitectura completa do sistema internacional contemporâneo.

A unipolaridade esgotou-se com o declínio relativo da capacidade dos Estados Unidos para exercerem uma hegemonia incontestada; a bipolaridade clássica pertence ao contexto histórico da Guerra Fria e pressupunha dois blocos ideologicamente fechados e economicamente separados; a multipolaridade, por seu turno, sobrevaloriza a autonomia dos diversos centros de poder e tende a subestimar a centralidade da rivalidade sino-americana.

A realidade emergente apresenta uma síntese original destes modelos, justificando a formulação de um novo conceito teórico: bipolaridade multilateralizada, entendido como uma ordem internacional na qual dois grandes pólos organizam a competição estratégica mundial através de vastas redes multilaterais de alianças, interdependências e mecanismos de projecção de poder.

A primeira característica desta nova ordem consiste na bilateralização da rivalidade estratégica. Independentemente da diversidade dos conflitos regionais, das crises económicas ou das disputas diplomáticas, a competição internacional convergiu para um eixo central estruturado entre dois grandes centros geopolíticos.

De um lado encontram-se os Estados Unidos da América e os seus aliados históricos, sustentando uma ordem internacional fundada nas instituições criadas após 1945 e adaptadas ao período pós-Guerra Fria.

Do outro lado emergiu uma parceria estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa, cuja convergência resultou menos de uma identidade ideológica do que da partilha do objectivo de limitar a predominância estratégica ocidental e promover uma redistribuição do poder internacional.

Esta bilateralização não significa que todos os conflitos tenham origem exclusiva nestas duas potências, mas significa que praticamente todos os grandes acontecimentos internacionais acabam por ser influenciados, condicionados ou reinterpretados à luz desta rivalidade estruturante.

Contudo, ao contrário da bipolaridade clássica do século XX, os dois pólos não constituem blocos rigidamente fechados nem vivem isolados um do outro.

A característica distintiva da presente ordem reside precisamente na multilateralização das alianças. Cada pólo procura ampliar permanentemente a sua esfera de influência através da construção de redes diplomáticas, militares, tecnológicas, financeiras, comerciais e energéticas que ultrapassam largamente o conceito tradicional de aliança militar.

O poder deixou de assentar exclusivamente na posse de armamentos ou na dimensão dos exércitos, passando igualmente a depender da capacidade para organizar sistemas internacionais de cooperação, garantir acesso privilegiado aos mercados, controlar infra-estruturas críticas, definir padrões tecnológicos, assegurar corredores logísticos e influenciar organizações internacionais.

O centro da competição deslocou-se da simples acumulação da força para a capacidade de liderar redes globais de interdependência.

No espaço liderado pelos Estados Unidos consolidou-se um sistema estratégico altamente institucionalizado, integrando a NATO como principal arquitectura de segurança euro-atlântica, a AUKUS como mecanismo de contenção no Indo-Pacífico, acordos bilaterais de defesa com o Japão, Coreia do Sul e Austrália, bem como uma estreita articulação política, tecnológica e económica com o Canadá, o Reino Unido, grande parte da União Europeia e diversos parceiros asiáticos.

A superioridade deste bloco não resulta apenas da sua capacidade militar, mas igualmente da sua liderança científica, financeira, tecnológica e universitária, do predomínio do dólar como principal moeda internacional, da influência das suas instituições financeiras e da capacidade para estabelecer normas globais em matérias tão diversas como comércio, inovação, propriedade intelectual, comunicações, economia digital e inteligência artificial.

Em sentido oposto, o espaço sino-russo desenvolveu uma estratégia distinta, baseada na complementaridade entre a capacidade industrial chinesa, os recursos energéticos e militares russos e uma crescente rede de parceiros interessados numa ordem internacional menos centrada no Ocidente.

A aproximação da Coreia do Norte, do Irão, da Bielorrússia e de diversos outros actores reforça a profundidade estratégica deste espaço, enquanto organizações como a Organização de Cooperação de Xangai oferecem plataformas de coordenação política e de segurança.

Paralelamente, a crescente projecção económica chinesa através das Novas Rotas da Seda, dos investimentos em infra-estruturas e do financiamento internacional amplia significativamente a sua influência sobre regiões inteiras da Ásia, de África, da América Latina e do Médio Oriente. Não se trata da reprodução de um bloco homogéneo, mas da construção gradual de uma rede estratégica alternativa.

Uma das diferenças fundamentais relativamente à Guerra Fria reside na existência de um vasto conjunto de potências intermédias que recusam integrar plenamente qualquer dos dois campos estratégicos.

Países como a Índia, o Brasil, a Turquia, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, a Indonésia, o Vietname, o México ou a África do Sul desenvolveram políticas externas assentes na autonomia estratégica, procurando maximizar simultaneamente as vantagens económicas proporcionadas pela China e as garantias de segurança, investimento, tecnologia ou cooperação oferecidas pelos Estados Unidos e pelos seus aliados.

Esta postura não representa neutralidade passiva, mas antes uma estratégia activa de optimização dos interesses nacionais num ambiente internacional caracterizado pela competição entre grandes potências.

Esta neutralidade estratégica confere às potências intermédias uma importância sem precedentes na história contemporânea. Longe de serem simples espectadores, estes Estados transformaram-se em actores de equilíbrio capazes de influenciar decisões internacionais, alterar cadeias de abastecimento, condicionar mercados energéticos, mediar conflitos e redefinir equilíbrios regionais.

A sua margem de manobra aumenta precisamente porque nenhum dos dois grandes pólos possui capacidade suficiente para impor unilateralmente a sua vontade ao conjunto do sistema internacional.

A Bipolaridade Multilateralizada produz, deste modo, uma distribuição diferenciada de influência, onde co-existem dois centros estruturantes e diversos pólos regionais dotados de autonomia funcional.

Outra característica essencial deste modelo consiste na natureza sistémica da competição internacional. A rivalidade entre os dois grandes pólos já não se limita ao domínio militar, nem pode ser reduzida à possibilidade de confrontação armada.

O verdadeiro centro da disputa deslocou-se para o controlo das tecnologias críticas, dos semi-condutores, da inteligência artificial, da computação quântica, das telecomunicações, das redes digitais, dos minerais estratégicos, das cadeias logísticas, das rotas marítimas, da energia, do espaço, da biotecnologia, das moedas internacionais, da cibersegurança e da informação.

O Estado que dominar estes sectores dominará igualmente a capacidade de produzir riqueza, inovação, segurança e influência durante as próximas décadas.

O poder internacional tornou-se multidimensional, integrando componentes militares, económicas, tecnológicas, científicas, culturais e informacionais numa única arquitectura estratégica.

Neste contexto, emerge igualmente aquilo que pode ser designado por multipolaridade funcional. Embora a estrutura geral da competição permaneça organizada em torno de dois grandes centros, verifica-se a existência de diversos pólos regionais dotados de capacidade autónoma para influenciar os respectivos espaços geopolíticos.

A Índia afirma-se como potência determinante no Sul da Ásia; a Turquia projecta influência entre a Europa, o Médio Oriente, o Cáucaso e o Mediterrâneo; a Arábia Saudita consolida a sua centralidade no Golfo; o Brasil permanece como principal potência sul-americana; a África do Sul continua a desempenhar papel relevante na África Austral.

Estas potências não substituem os dois grandes pólos, mas funcionam como centros regionais cuja importância decorre precisamente da sua capacidade para negociar simultaneamente com ambos.

A Bipolaridade Multilateralizada constitui igualmente uma ordem profundamente interdependente. Ao contrário da Guerra Fria, as duas grandes potências rivais permanecem ligadas por intensas relações comerciais, financeiras, industriais e tecnológicas.

Cadeias globais de produção cruzam fronteiras políticas; mercados financeiros reagem instantaneamente a decisões tomadas em continentes distintos; empresas multinacionais operam simultaneamente em economias concorrentes; e tecnologias desenvolvidas num país são frequentemente produzidas ou montadas noutro.

Esta interdependência reduz os incentivos para um confronto directo de larga escala, mas aumenta significativamente a competição indirecta em torno do controlo dos sectores estratégicos essenciais à prosperidade futura.

Do ponto de vista teórico, o conceito de Bipolaridade Multilateralizada oferece uma explicação mais abrangente da realidade internacional contemporânea do que as categorias actualmente predominantes.

Reconhece simultaneamente a centralidade da rivalidade sino-americana, a crescente importância das redes multilaterais de alianças, a autonomia estratégica das potências intermédias, a natureza multidimensional da competição global e a persistência de centros regionais de poder.

Em vez de substituir totalmente as teorias anteriores, integra os seus elementos válidos numa síntese conceptual superior, mais adequada à compreensão da complexidade do século XXI.

A bipolaridade multilateralizada deve, por conseguinte, ser entendida como uma nova categoria da Ciência das Relações Internacionais e da Geopolítica. Não descreve apenas a distribuição contemporânea do poder; explica igualmente a lógica do funcionamento da nova ordem mundial, as formas emergentes de competição estratégica e os mecanismos através dos quais as grandes potências procuram organizar o sistema internacional.

Trata-se de uma ordem simultaneamente bipolar na estrutura da rivalidade, multilateral na organização das alianças, multipolar na distribuição funcional da influência regional e interdependente na natureza das relações económicas e tecnológicas.

É precisamente esta combinação inédita de elementos que faz da Bipolaridade Multilateralizada um conceito mais rigoroso e mais capaz de interpretar a arquitectura estratégica da Ordem Internacional do século XXI.

Obrigado

*Antigo secretário geral da UNITA

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