A viúva e o órfão de um militar/polícia – Lando Miguel
A viúva e o órfão de um militar/polícia - Lando Miguel
Pol e FAA

Nos últimos anos, o índice de morte de militares e polícias tem-se multiplicado de forma assustadora, como se uma sombra antiga tivesse regressado para reclamar os corpos daqueles que juraram proteger a nação.

O trabalho investigativo realizado revela um padrão perturbador: quase todos morrem nas mesmas circunstâncias, como se o destino tivesse sido previamente escrito por mãos invisíveis. E o princípio desta desgraça, cruel e persistente, nasce no abandono estatal que lhes foi imposto pelo próprio Estado que juraram defender até ao último sopro.

O desprezo institucional tornou-se tão profundo que muitos destes efectivos, mesmo depois da morte, continuam a carregar o peso da negligência.

As suas mulheres e filhos herdam não apenas a dor, mas também o sofrimento estrutural: o abandono prolonga-se, as viúvas e órfãos não conseguem receber os direitos dos seus antequeridos, e a burocracia transforma-se numa máquina de triturar dignidades.

Há relatos de mulheres que, ao procurarem ajuda nas instituições, são abusadas sexualmente, vítimas de predadores que se escondem atrás de fardas e cargos. Como escreveu Pepetela, “há mortes que não acabam quando o corpo cai; continuam a matar quem fica”.

Outras nunca chegam a receber o que lhes é de direito porque alguns chefes, embriagados pelo poder, consideram-se donos dos bens do falecido, deixando famílias inteiras na miséria extrema. Como escreveu Sony Labou Tansi, “o poder, quando apodrece, cheira a cadáver antes de matar”.

Esses roubos tornaram-se fonte de enriquecimento para muitos chefes, que preferem morrer do que perder o acesso ao que não lhes pertence. A corrupção, aqui, não é apenas prática — é doutrina. É ritual. É herança. É método. É, como diria Luandino Vieira, “uma doença que se entranha na carne do país”.

As instituições onde se deveriam abrir queixas estão mortas ou capturadas por aqueles que juraram descredibilizar, silenciar, destruir. Tal como existem militares que juraram defender o Estado, há também mercenários infiltrados nas Forças Armadas e na Polícia Nacional que juraram matar o Estado por dentro.

O inimigo, hoje, não está apenas nas fronteiras — está sentado em gabinetes, assina despachos, usa passadores e farda com orgulho. Como dizia Agostinho Neto, “o mais difícil não é morrer, é sobreviver à injustiça”.

Afinal, até onde vamos? Porque vigora este silêncio que atravessa gerações? Quando se reúne o Conselho de Segurança Nacional, de que se trata realmente? De segurança… ou de conveniência?

Mia Couto, “quando o silêncio é grande demais, é porque alguém está a gritar por dentro”.

A incompetência veste farda, usa fatos, ostenta galões ao mais alto nível, e perdeu a vergonha. O Estado, há muito, perdeu o sentido. A tropa, hoje, vive de incertezas, com medo do amanhã. Tudo o que lhes pode acontecer, eles vêem nos colegas que já partiram. A desilusão tornou-se rotina. A esperança, contrabando. A dignidade, luxo.

Como escreveu Mia Couto, “há silêncios que são crimes”. E este silêncio institucional, que permite que militares e polícias morram duas vezes — primeiro no corpo, depois na memória — é um crime que ainda não encontrou tribunal.

A viúva e o órfão de um militar/polícia não pedem luxo. Pedem dignidade. Pedem o que lhes pertence. Pedem que o Estado cumpra o juramento que eles próprios cumpriram até à morte.

Se o país não proteger quem o protege, o país deixa de existir.

Precisamos rever urgentemente a situação dentro das instituições, porque os militares e polícias vivos estão a sobreviver, não a viver. Estão a servir um Estado que não vela pelos seus, um Estado que esqueceu que a farda não é apenas tecido: é promessa, é sacrifício, é vida.

E quando um Estado abandona aqueles que o defendem, abandona-se a si próprio.

*Investigador em Segurança e Defesa

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