
Em geral, quem come bem, pensa bem. Quem come mal, pensa mal. Para comer bem, é preciso que as condições financeiras estejam concatenadas com o valor da cesta básica e com a realidade do agregado familiar.
Mas o agregado familiar é responsabilidade de cada cidadão, e não do Estado. O dever do Estado é criar condições para o trabalho, promover a justiça salarial e garantir oportunidades dignas. O dever do cidadão é gerir com responsabilidade os recursos que possui e as decisões que toma ao longo da vida.
“Não podemos justificar a incompetência nem a corrupção com salários baixos.” Há verdade nessa afirmação. Quem entra para o serviço público sabe, ou deveria saber, quanto irá receber.
Aceitar um cargo não é assinar uma licença para a negligência, nem um contrato secreto com a corrupção. O salário pode ser pequeno, mas o dever continua grande. Roubar não se transforma em virtude porque a necessidade bate à porta.
A corrupção continua corrupção, mesmo quando tenta vestir a roupa da pobreza. Mas a reflexão não termina aí.
Também é verdade que um Estado que exige muito e paga pouco, semeia desmotivação, frustração e baixa produtividade.
Quem trabalha o mês inteiro e não consegue garantir a alimentação da família, vive uma luta diária que consome energia, esperança e capacidade de concentração.
Quem come bem, pensa melhor. Quem vive com dignidade, trabalha com mais serenidade. Quem dorme preocupado com a fome dos filhos, nem sempre consegue oferecer o melhor de si. Por isso, salário digno não é favor; é investimento.
Não é desperdício; é valorização do capital humano. Um professor valorizado ensina melhor. Um enfermeiro valorizado cuida melhor. Um magistrado valorizado julga com mais independência. Um funcionário valorizado serve melhor o cidadão.
O Estado deve procurar adequar os salários ao custo real da vida, à cesta básica e às necessidades mínimas de uma existência digna. Não para comprar honestidade, porque honestidade não se compra. Mas para criar condições em que a honestidade não seja constantemente testada pela miséria.
Entretanto, há um limite que precisa ser compreendido: o agregado familiar é responsabilidade de cada cidadão. O Estado deve garantir salários justos e condições dignas. Mas não pode ser responsabilizado por todas as decisões individuais, nem pelo número de pessoas que cada trabalhador decide sustentar.
O equilíbrio está no meio. Nem justificar a corrupção com salários baixos. Nem usar a responsabilidade individual para justificar salários indignos.
Uma nação forte constrói-se quando o cidadão cumpre o seu dever e o Estado cumpre a sua obrigação. Quando há competência sem arrogância, autoridade sem abuso, salário digno sem privilégios e honestidade sem desculpas.
Porque o desenvolvimento não nasce apenas de leis, nem apenas de discursos. Nasce quando quem governa valoriza quem trabalha, e quando quem trabalha honra a confiança do povo.
Só assim teremos servidores públicos mais motivados, instituições mais fortes e uma sociedade mais justa para todos.
Boa reflexão!
*Docente universitário