Tabuleiro político em Angola: afinal quem está no controle? – Nzongo Bernardo dos Santos
Tabuleiro político em Angola: afinal quem está no controle? - Nzongo Bernardo dos Santos
marcha MPLA

O cientista político norte-americano Joseph Nye, o homem por trás da origem do conceito de SOFT POWER, demonstrou que a influência na politica nos tempos actuais já não tem muito haver com o uso da força, do poder pelo poder, da coerção ou da “trunguguice”, mas sobretudo com a capacidade de persuadir e conquistar legitimidade através da comunicação e da credibilidade.

Investigadores internacionais como o conceituado britânico Alex Vines, antigo director para África da Chatham House, observou que os partidos históricos enfrentam hoje um dos seus maiores desafios existenciais, o de comunicar com gerações mais jovens, cujas referências políticas e expectativas são diferentes das do passado.

Na mesma linha, a vice-presidente MPLA, Mara Quiosa, anuiu, durante o acto político de massas, realizado no passado sábado, dia 18 do mês em curso, na província da Huíla, ao referido pensamento vigente, reconhecendo que em Angola, “um telemóvel na mão de um jovem é mais forte do que mil megafones nos comícios”.

No país, esta realidade é todos os dias clarividente. Facebook, WhatsApp, TikTok, e YouTube transformaram-se em autênticas praças públicas digitais, onde os cidadãos, com jovens na sua maioria, discutem política, partilham opiniões, questionam decisões e procuram informação, a “torta e a direita”.

É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios estratégicos do partido do e no poder.

O partido possui vantagens que outros partidos, “juntos, unidos e misturados” não possuem, como uma história ímpar, uma estrutura nacional consolidada, experiência governativa e implantação territorial.

Porém, nenhuma destas vantagens, por si só, garante influência permanente ou superioridade no ambiente digital. Como se costuma dizer na gíria popular “quem dorme descansado na areia, leva boleia da poeira”.

Na política da comunicação politica digital acontece exactamente o mesmo. José Gama, analista político angolano, têm defendido que o espaço digital passou a influenciar significativamente a formação da opinião pública, obrigando os actores políticos a adaptarem as suas estratégias de comunicação ao novo ecossistema mediático.

Por isso, é indispensável que o MPLA faça da comunicação digital uma extensão natural da sua acção política. Como diz a sabedoria popular dos nossos kotas, “quem chega tarde para perguntar a panela que está no fogo corre o risco de comer comida queimada”.

Em tese a comunicação política não serve para convencer que já está convencido, mas fundamentalmente os indecisos.

Quem decide eleições são, normalmente os cidadãos que observam a distância, que comparam versões narrativas, que mantém dúvidas e que ainda procuram razões para acreditar.

É precisamente esse eleitor, hoje mais exigente, que reage mal ao excesso de propaganda. Não porque seja necessariamente da oposição. Nem sequer é por uma questão ideológica.

Reage mal porque sente que estão a tentar vender-lhe uma realidade mais cor-de-rosa do aquele que ele ou ela vive no seu dia-a-dia.

Paradoxalmente, esta estratégia pode acabar por oferecer a quem está fazer oposição um presente de natal antecipado e inesperado.

Não porque a oposição apresenta as melhores soluções, mas porque a saturação comunicacional transforma qualquer discurso de alternância, até mesmo a mais bizzara numa lufada de ar fresco.

Dito de outra forma. A rejeição nasce menos da política e mais da forma como a política é apresentada.

De nada adianta mudar o figurante, não importa quão expedito e popular ele seja, se a vontade continua a ser a de manter sempre o mesmo figurino.

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