
O mais recente relatório do Banco Mundial apresenta uma conclusão que merece uma reflexão profunda: cerca de 42,4% da população angolana continuará em situação de pobreza em 2027, enquanto a economia deverá crescer, em média, apenas 2,7% ao ano entre 2026 e 2028.
Traduzido em termos simples, isto significa que quase 4 em cada 10 angolanos continuarão sem beneficiar de forma significativa do crescimento económico. Mais preocupante ainda é o facto de este crescimento ser inferior ao crescimento demográfico, estimado em aproximadamente 3,1% ao ano, o que implica uma redução do rendimento real por habitante.
Uma economia pode crescer e, simultaneamente, os seus cidadãos ficarem relativamente mais pobres. É precisamente esse o risco que Angola enfrenta.
O crescimento económico já não é suficiente
Durante muitos anos, Angola registou algumas das maiores taxas de crescimento do mundo. Entre 2002 e 2008, o crescimento anual ultrapassou frequentemente 10%, impulsionado pela expansão da produção petrolífera e pelos elevados preços internacionais do crude.
No entanto, esse crescimento não foi acompanhado pela diversificação da economia. Em consequência:
Em termos económicos, Angola cresceu, mas não transformou esse crescimento numa base produtiva suficientemente ampla para absorver a sua população activa.
A matemática da pobreza
Os números ajudam a compreender o desafio.
Considerando uma população próxima dos 40 milhões de habitantes, uma taxa de pobreza de 42,4% representa aproximadamente 17 milhões de cidadãos em situação de vulnerabilidade económica.
Por outro lado, todos os anos entram centenas de milhares de jovens no mercado de trabalho.
Se a economia crescer apenas 2,7%, dificilmente conseguirá criar empregos formais suficientes para acompanhar esta dinâmica demográfica.
O resultado é previsível:
O problema não é falta de recursos
Poucos países africanos possuem tantas vantagens competitivas como Angola.
O país dispõe de:
O problema, portanto, não reside na escassez de recursos.
O problema reside na capacidade de transformar recursos naturais em produtividade, inovação, emprego e valor acrescentado.
O exemplo dos países que conseguiram mudar
Diversos países demonstram que esta transformação é possível.
Vietname
Há três décadas apresentava níveis elevados de pobreza.
Hoje exporta produtos electrónicos, equipamentos industriais, têxteis e produtos agrícolas para todo o mundo.
A pobreza extrema caiu de mais de 50% para menos de 5% graças a políticas consistentes de industrialização, investimento em educação e abertura ao investimento privado.
Botswana
Embora igualmente dependente dos recursos minerais, conseguiu construir instituições sólidas, estabilidade macroeconómica e um dos maiores rendimentos per capita de África.
Ruanda
Sem petróleo nem grandes recursos minerais, transformou-se numa referência africana em ambiente de negócios, digitalização da administração pública e eficiência governativa.
A principal diferença entre estes países e muitos outros não está na quantidade de recursos disponíveis, mas na qualidade das instituições e das políticas públicas.
O Corredor do Lobito pode ser um divisor de águas
O Executivo definiu correctamente o Corredor do Lobito como um dos pilares da estratégia de diversificação económica. Contudo, uma linha férrea, por si só, não gera desenvolvimento.
O verdadeiro impacto económico ocorrerá apenas se forem criadas cadeias produtivas ao longo do corredor.
Isso implica instalar:
Caso contrário, Angola limitar-se-á a transportar matérias-primas para exportação, sem capturar a maior parte do valor económico.
Cinco reformas prioritárias
A análise económica permite identificar cinco prioridades imediatas.
A agricultura emprega uma parcela significativa da população, mas continua com baixa produtividade.
O objectivo deve deixar de ser apenas produzir alimentos.
É necessário produzir alimentos, transformá-los industrialmente e exportá-los.
Cada unidade de transformação cria emprego, aumenta o rendimento rural e reduz importações.
Grande parte das pequenas e médias empresas enfrenta dificuldades no acesso ao crédito.
Criar mecanismos de garantia pública, reduzir custos financeiros e melhorar o ambiente de negócios permitiria aumentar significativamente o investimento privado.
Segundo estudos internacionais, um ano adicional de escolaridade pode aumentar a produtividade individual em cerca de 8% a 10%.
Nenhum país conseguiu industrializar-se sem investir massivamente na educação técnica, formação profissional e inovação.
O investimento depende da confiança.
Processos administrativos mais rápidos, maior previsibilidade regulatória, segurança jurídica e transparência aumentam a competitividade nacional.
O custo da burocracia é invisível nas estatísticas, mas reduz significativamente o crescimento económico.
Mais importante do que anunciar milhares de milhões de kwanzas em investimento público é medir:
Políticas públicas devem ser avaliadas pelos seus resultados concretos.
Uma nova geração de reformas
Angola entrou numa fase diferente da sua história económica. Durante décadas, o petróleo financiou grande parte da despesa pública. O futuro será diferente.
A competitividade passará pela inovação, pela produtividade, pelo conhecimento e pela capacidade de integrar as cadeias globais de valor. Isso exige uma nova geração de reformas estruturais.
Conclusão
Os dados do Banco Mundial não devem ser encarados como uma previsão inevitável, mas como um aviso técnico que oferece ao país uma oportunidade para corrigir a trajetória antes que os desequilíbrios se agravem.
Angola reúne condições económicas, geográficas e humanas para crescer acima de 5% ao ano, desde que consiga elevar o investimento privado, aumentar a produtividade e acelerar a diversificação da sua base produtiva.
O desafio central não é apenas aumentar o Produto Interno Bruto, mas garantir que esse crescimento se traduza em melhores salários, mais emprego formal, maior competitividade e redução efetiva da pobreza.
A história económica demonstra que os países que prosperaram foram aqueles que substituíram a dependência dos recursos naturais por uma economia baseada na produção, no conhecimento, na inovação e em instituições fortes.
Angola possui todos os fatores para seguir esse caminho. O sucesso dependerá da capacidade de transformar visão estratégica em execução eficiente, colocando o cidadão no centro da política económica e convertendo o crescimento em desenvolvimento inclusivo e sustentável.
*Economista